Nos últimos meses, as listas de livros mais vendidos no Brasil, em especial a da revista Veja, vem mostrando um fenômeno intrigante: a presença de autores que morreram há muito tempo no topo do ranking. Na semana passada, por exemplo, Veja registrou entre os best-sellers nomes como Machado de Assis, Fiódor Dostoiévski, Franz Kafka e Clarice Lispector (imagem). Na última edição, a brasileira e o russo voltaram à lista. Essa forte presença significa que não existem bons escritores no mundo de hoje? Os leitores estariam preferindo publicações do passado por não encontrarem bons lançamentos contemporâneos?
Paradoxalmente, essa mudança no comportamento dos leitores tem origem no mundo digital. O fenômeno tem forte ligação com o TikTok, especialmente com a comunidade conhecida como BookTok. Ali, trechos intensos e reflexões sobre clássicos circulam em vídeos curtos e emocionados, despertando curiosidade em milhões de jovens. O formato favorece obras que condensam grandes ideias em frases memoráveis e isso explica por que livros escritos há décadas voltam a ganhar espaço nas prateleiras.
Muitos criticam as redes sociais por acharem que este é um universo de desmiolados, no qual a futilidade impera. Em muitos casos, isso é verdade. Mas o BookTok é uma espécie de oásis no meio de tanta ignorância digital. Essas recomendações acabaram gerando uma comunidade gigantesca. Somente por aqui, o grupo BookTokBrasil já somou mais de 20 bilhões de visualizações. No mundo inteiro, os booktokers geraram 215 bilhões de views.
Editoras e livrarias perceberam rapidamente esse movimento e passaram a investir em novas edições de clássicos, muitas vezes com capas modernas e a adoção de uma linguagem mais acessível. A estratégia funciona porque conecta tradição e novidade, oferecendo ao público a sensação de participar de uma tendência global sem perder o contato com a profundidade literária.
Esse não é um fenômeno restrito ao Brasil. Em países como Estados Unidos e Inglaterra, títulos como “Orgulho e Preconceito” (Jane Austen) e “O Morro dos Ventos Uivantes” (Emily Brönte) também voltaram às listas de mais vendidos graças ao BookTok. A viralização cria ondas de consumo que atravessam fronteiras e mostram como a cultura digital pode revitalizar obras que pareciam restritas ao ambiente acadêmico.
O TikTok transformou a forma como os leitores descobrem livros e deu aos clássicos uma nova vida comercial. O resultado é uma convivência entre passado e presente, em que Machado de Assis e Clarice Lispector dividem espaço com autores contemporâneos, todos impulsionados pela força das redes sociais. As cantoras Dua Lipa, Lorde e Olivia Rodrigo já deram declarações sobre a obra de Lispector – assim como a atriz Cate Blanchett. Dessa forma, vemos uma ponte entre gerações, na qual autores consagrados voltam a dialogar com o público jovem graças à força das redes sociais, enquanto escritores contemporâneos também encontram espaço nesse cenário híbrido. A literatura, afinal, não é uma competição entre passado e presente, mas um território de continuidade, no qual as obras antigas podem emocionar e inspirar os escritores do presente.
Publicado em 30/11/25