Na era do tarifaço, as exportações para os Estados Unidos caem e as importações aumentam, aponta a balança comercial de outubro
A balança comercial de outubro registrou um superávit de US$ 7 bilhões, um aumento de US$ 2,9 bilhões em relação a outubro de 2024. Em valor, as exportações aumentaram 9,1% e as importações recuaram em 0,8%. Na comparação do acumulado do ano até outubro, o saldo foi de US$ 52,4 bilhões, um recuo de US$ 10,4 bilhões em relação a igual período de 2024. As exportações cresceram em valor 1,9% e as importações 7,1%, na comparação dos acumulados do ano. No primeiro semestre, o ritmo de crescimento das exportações era inferior ao das importações, o que começou a mudar a partir de julho, com uma exceção em setembro. A análise faz parte do Indicador de Comércio Exterior (Icomex) da Fundação Getúlio Vargas Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre) desta quarta-feira (19).
Se o acordo entre Estados Unidos e União Europeia já tinha enfraquecido o argumento que as grandes economias com maior poder de barganha iriam resistir às imposições de Trump, para o Brasil, o aumento dos acordos assinados, em especial, com a Argentina, impõe que as negociações se acelerem. Primeiro, seria importante que o governo brasileiro conseguisse a trégua da suspensão do tarifaço de 40% durante as negociações, o que fez com outros países. É diferente sentar-se na mesa para negociar a partir de 40% do que os 10% adicionais da tarifa de reciprocidade. Segundo, a medida que os países vão aceitando temas da segurança econômica, abertura de mercados e outros compromissos, diminui a margem para o Brasil do escopo da agenda negociadora.
Dos setores apresentados, todos registraram queda no valor exportado para os Estados Unidos, entre o acumulado de agosto a outubro de 2024 em relação a igual período de 2025, exceto os setores de produtos químicos e farmacêuticos e os produtos de borracha e plástico. Entretanto, esses representaram 1,7% do total exportado para os Estados Unidos. Para o resto do mundo, as quedas foram para os setores de produtos florestais, têxteis, produtos de couro, celulose, derivados de petróleo e outros produtos de transporte.
Em termos de volume, os setores com variação positiva nos Estados Unidos foram: borracha (24,2%); químicos e fármacos (8,0%); couro (0,7%); e, produtos de petróleo (1,8%).
Os dados continuam confirmando que o efeito do tarifaço no curto prazo não comprometeu as exportações totais do Brasil. Nesse período (agosto-outubro), as exportações totais do Brasil aumentaram em 6,4% e para os Estados Unidos recuaram em 24,9%.
Na comparação da variação dos índices de preços e volume, em outubro, a variação das exportações em volume foi de +11,3% e das importações, um recuo de 2,5%. No acumulado, porém, o aumento das exportações foi de 4,3% e das importações de 8%. O recuo no preço exportado foi maior tanto em outubro quanto no acumulado em comparação com o das importações. Em outubro, as importações registraram aumento de preços em 1,9%.
A queda no saldo da balança comercial no acumulado do ano até outubro está relacionada à redução do superávit com a China de US$ 30,4 bilhões, em 2024, para US$ 24,9 bilhões, em 2025, diferença de US$ 5,5 bilhões. Aumento de US$ 5,4 bilhões do déficit com os Estados Unidos, passando de um déficit de US$ 1,4 bilhões para US$ 6,8 bilhões. Na Argentina, o déficit de US$ 4,7 bilhões passou para um superávit de US$ 5,1 bilhões, um ganho de US$ 9,8 bilhões que não compensa as perdas em dólares do saldo com os Estados Unidos e a China, no valor de US$ 10,9 bilhões. Para explicar o recuo no saldo total, outros países/blocos também registraram piora nos saldos comerciais, como o caso da União Europeia.
Em outubro, a China liderou as exportações (+32,8%) e, para os Estados Unidos, a queda foi de 35,9%. Na comparação do acumulado, a liderança era da Argentina (+43,0%), mas a partir do segundo semestre foi observada uma desaceleração nas exportações, que na comparação de outubro foi de 3,7%. Resultado inverso ao da China que acelerou as exportações no segundo semestre e, no acumulado, a variação foi de +8,1%. Para a União Europeia, as exportações aumentaram +2,9% e no acumulado do ano, em +0,7%. Para os Estados Unidos, na comparação do acumulado, a queda foi de -4,7%.
Nas importações, a liderança em outubro foi dos Estados Unidos (+7,5%), ao mesmo tempo em que caiu para a China (-0,4%), Argentina (-11,3%) e União Europeia (-0,9%). Na era do tarifaço, as exportações para os Estados Unidos caem e as importações aumentam.
A partir de setembro, uma desaceleração mais acentuada das exportações para a Argentina e aceleração para a China. Até o final do ano, essas variações não devem mudar suas tendências, mas é possível que o crescimento da China desacelere.
Uma característica do ano de 2025 foi o melhor desempenho das não commodities, aumento de 8,1% na comparação dos acumulados do ano até outubro, em relação às commodities (+2,8%). Com a aceleração do aumento das exportações para a China a partir de meados do ano, crescem as vendas das commodities. Em outubro, as commodities aumentam em volume, 13,5% e as não commodities, 6,3%. Os preços das commodities registraram recuo nas duas bases de comparação: -2,7% (outubro) e -4,6% (acumulado no ano).
Os índices de volume por setor de atividade refletem, em parte, o desempenho das commodities agrícolas. Na comparação do acumulado do ano, as variações foram: agropecuária (+1,1%); extrativa (+6,5%); e, transformação (+5,2%). Em outubro, a agropecuária cresce 17,9%, extrativa, +21,1% e transformação, +6,1%. A indústria extrativa lidera as exportações brasileiras.
Os principais produtos exportados em outubro foram: petróleo, com aumento em valor de 9,0%; minério de ferro, +29,5%, soja, +42,7%, carne bovina, +40,9%, açúcares e melaços, -5,8% e café, +16%. Todos os produtos registraram aumento no volume exportado, menos café. Queda de preços foi registrada para o petróleo, soja e açucares, mas o aumento do volume compensou essa queda e o valor registrou variação positiva nos dois primeiros. Observa-se, portanto, que o aumento no valor exportado do café foi liderado pelo preço (+38,9%) e a queda do valor exportado do açúcar pelo recuo do preço em -16,5%.
Em outubro, as importações de bens de capital na indústria aumentaram em 5,4% e na agropecuária em 22,5%. No acumulado do ano, essas variações foram 21,9%, para a indústria e 7,4%, na agropecuária. Essas diferenças, no caso da agropecuária, é em parte sazonal e para a indústria pode estar refletindo que os investimentos se concentraram no primeiro semestre. Compras de bens intermediários recuaram na indústria e na agropecuária em outubro. Se esse é entendido como um indicador de nível de atividade, ambos estariam com expectativas mais desfavoráveis.
A importância do setor de petróleo na pauta de comércio exterior do Brasil é destacada. O Quadro 1 mostra o saldo comercial do petróleo bruto, dos derivados de petróleo, demais produtos e o total. O Brasil é superavitário em petróleo e deficitário em derivados. Nota-se que o saldo de petróleo ultrapassa o dos “demais produtos” no acumulado de janeiro a outubro de 2025 e, mesmo incluindo os derivados, o saldo do setor de petróleo é próximo ao dos demais produtos.
Em um momento em que se discute a questão da transição energética, é preciso ter uma estratégia de longo prazo para assegurar uma pauta de exportação “sustentável”.
(FGV)
