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Polarização: o que o segundo turno do Chile pode nos ensinar

Aluizio Falcão Filho
18 de novembro de 2025

As eleições chilenas apresentam aos seus eleitores dois extremos para o segundo turno: de um lado, a comunista Jeannette Jara (imagem) e, de outro, o ultradireitista José Antonio Kast. Muitos falam que a polarização política está em decadência. Mas o fato, porém, é que se trata de um fenômeno em pleno vigor. A candidatura de alguém que poderia contemporizar os radicalismos, a de Evelyn Matthei, por exemplo, chegou em quinto lugar na disputa chilena.

Com cinco candidatos fortes, a passagem para o segundo turno no Chile se transformou em uma loteria – e aqueles com maior militância conseguiram o passe para disputar a etapa final das eleições. Isso poderá se repetir aqui no Brasil? Há uma boa chance. Mas cada país tem suas características próprias e talvez a retirada do ex-presidente Jair Bolsonaro do páreo possa diminuir o impacto dos radicalismos nas urnas.

Existe uma semelhança entre os eleitores chilenos e brasileiros que é mais sutil: o Chile claramente deseja uma renovação política e deixou medalhões como a própria Matthei e o populista Franco Parisi de fora do segundo turno. No Brasil, dois indicadores mostram esse desejo por renovação. Um é o número de eleitores que preferem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fora das eleições de 2026: 59%. Outro indício é a votação expressiva que o outsider Pablo Marçal teve na disputa pela prefeitura de São Paulo em 2024, quase conquistando um lugar na etapa final (não vamos aqui discutir o candidato em si, mas o seu desempenho nas urnas).

Lá, como aqui, o tema principal é a segurança pública. Nos últimos quatro anos, a violência no Chile tem mostrado uma escalada significativa, tanto em frequência quanto na gravidade dos crimes. Dados recentes revelam um aumento expressivo em diversas categorias de criminalidade e de violência por lá.

Outro aspecto preocupante é o uso crescente de armas de fogo em homicídios e a sofisticação das ações criminosas, que incluem confrontos letais entre gangues e forças de segurança. O país enfrenta ainda o controle territorial por quadrilhas, consumo de armamentos sofisticados e a presença de grupos estrangeiros envolvidos em tráfico de drogas, sequestros e extorsão. Trata-se de um quadro bastante familiar para os brasileiros (em especial, os cariocas).

Esse cenário tem impacto direto na sociedade, já que quase dois terços dos chilenos apontam crime e violência como suas principais preocupações. São índices superiores aos observados mesmo em países vizinhos com taxas de homicídio mais altas. Esses números demonstram uma deterioração da segurança no Chile, marcada pelo crescimento da criminalidade organizada, pelo maior uso de armas e por problemáticas relacionadas à imigração e às ações das gangues, especialmente após os protestos de 2019.

O Brasil pode observar no Chile um espelho de suas próprias tensões políticas e sociais. A polarização que levou dois extremos ao segundo turno chileno não é um fenômeno distante de nós e pode se repetir em nossas eleições futuras. A semelhança entre os dois países está não apenas na busca por renovação, mas também na forma como a insegurança pública se tornou o tema central do debate.

Se os brasileiros não encontrarem alternativas fora dos extremos, corre-se o risco de ver a política transformada em um campo de batalha permanente. Soluções radicais podem aprofundar divisões e dificultar a construção de políticas públicas duradouras. Além disso, a democracia se fortalece quando há pluralidade de ideias e capacidade de diálogo. Quando temos apenas uma disputa binária no tabuleiro, as soluções não se reciclam e ficamos sempre estagnados.

O exemplo do Chile nos mostra que a polarização pode capturar uma percepção presente e limitar as opções de futuro. O Brasil tem a oportunidade de aprender com essa experiência chilena e buscar caminhos que privilegiem equilíbrio e responsabilidade. Somente assim será possível enfrentar os desafios da violência, da desigualdade e da renovação política sem cair em armadilhas que já se mostraram perigosas em outros contextos.

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