Minha filha está terminando o ensino médio neste ano. E começou a prestar vestibulares. Amanhã, por sinal, vai ficar a tarde toda fazendo a prova do Enem. Por conta disso (a tensão envolvida nisso é considerável), o comportamento dela está sujeito a altos e baixos.
Instintivamente, busquei na memória o que senti nessa época, a do vestibular, para melhor compreender o momento pelo qual ela passa. Mas logo desisti. Eu era um rapaz crescendo nos anos 1980 – ela é uma menina aprendendo a sair da adolescência em 2025.
Mas me esforcei um pouquinho mais. Afinal, algumas emoções são universais e atemporais. Quem sabe não haveria pontos em comum para que eu exercitasse algum tipo de empatia com ela? Se eu tentasse me reconectar com o adolescente que fui poderia me entender melhor com ela. Diante dessa constatação, fui em frente, caminhando por aquilo que os americanos chamam de “memory lane”.
Percebi que, quando eu tinha a mesma idade que ela, não conseguia entender ou refletir muito sobre minhas emoções. A saída foi buscar explicações ou identificação nas músicas, nos livros e no cinema. Uma canção que me reconfortasse nos momentos de mágoa; ou um livro cujo personagem tivesse as mesmas angústias; ou um enredo de filme que me fizesse entender o meu comportamento durante uma paixonite (termo, aliás, que aprendi em uma música de Rita Lee).
Demorou muito para que eu entendesse as origens e as raízes de meus problemas ou desafios. E, algumas décadas depois, para tentar (ênfase em “tentar”) me prevenir dos gatilhos que detonam comportamentos indesejados. Ao manifestar esse pensamento, concluí que se eu tenho essas dificuldades nesta altura do campeonato, o que dizer de uma menina de 17 anos?
Desconfio que existe algo regendo o nosso modo de agir e de pensar durante a adolescência: o tempo. A sensação de que o tempo é uma mercadoria abundante e quase infinita é algo que está conosco o tempo todo durante a juventude.
Já mencionei isso em artigo que escrevi dois anos atrás, quando o filme “Rumble Fish” (“O Selvagem da Motocicleta”), de Francis Ford Coppola, foi lançado nas plataformas de streaming. Mais especificamente, é uma cena em que o personagem do músico Tom Waits, Benny, está divagando no balcão de seu bar.
Ele diz o seguinte: “Tempo é uma coisa engraçada. É um item muito peculiar. Veja, quando você é jovem, você é um garoto, você não tem nada além de tempo. Você joga fora um par de anos aqui, mais um par de anos ali… Isso não importa, sabe? Quando você fica mais velho, acaba pensando: ‘Nossa, qual é a minha idade? Eu tenho trinta e cinco verões para desfrutar’. Pense nisso. Trinta e cinco verões”.
Vamos colocar o tempo na perspectiva de alguém que ainda não conhece bem as próprias emoções e tem uma necessidade de se firmar perante os amigos e à família. É a receita perfeita para descargas profundas de emoções. Nessas horas, lembro sempre de um provérbio que ouvi em um filme: “Isso também passará”.
Curiosamente, essa também é uma película de Coppola, “Peggy Sue Got Married”. A personagem principal é vivida por Kathleen Turner, que desmaia durante uma festa de reencontro dos alunos da escola e desperta na época em que estava com dezessete anos. Quando revela seus sentimentos ao avô, Peggy Sue escuta essa frase como resposta.
A expressão “isso também passará” atravessa culturas e séculos, ecoando desde a sabedoria persa até tradições judaicas, orientais e discursos históricos no Ocidente. Em todas essas fontes, a mensagem permanece intacta: tudo na vida é transitório e mesmo os momentos mais difíceis acabam cedendo espaço para novas experiências e aprendizados.
Nenhum sentimento — dor, medo, solidão ou vergonha — é eterno. Na adolescência, esse lembrete é especialmente valioso. Conflitos familiares, inseguranças, dúvidas e amores não correspondidos parecem gigantescos, mas fazem parte de um processo de transformação. Compreender que tudo passa ajuda a aliviar o peso das pequenas tragédias cotidianas. As alegrias intensas e as dores profundas vêm e vão, e com o tempo, deixam lições que contribuem para o amadurecimento.
O desconforto de não se sentir nem criança nem adulto parece ser uma experiência única para quem a vive. Mas, na verdade, é algo comum a todos os indivíduos. Esse limbo é, na verdade, um rito de passagem que, apesar dos desafios, vai gerar força e maturidade. “Isso também passará” é uma sentença que simboliza o enfrentamento dos períodos difíceis com a certeza de que são passageiros. Saber disso cultiva paciência, esperança e resiliência. Essas são qualidades essenciais para crescer e lidar com as transformações que a vida inevitavelmente traz.
Embora cada geração viva suas dores, dúvidas e intensidades de maneira única, todas compartilham essa travessia das primeiras incertezas. O tempo, que na juventude parece elástico e sem fim, aos poucos revela que cada experiência deixa sua marca e, mesmo assim, nada é eterno. O aprendizado está justamente no movimento, na transformação constante, na improvável leveza trazida pela certeza de que tudo passa.
Depois de muito tempo, entendo que nenhuma emoção, por mais profunda que seja, não é nosso destino final e sim uma parte de nosso percurso. Chegar à maturidade não é como cruzar uma linha de chegada — e sim crescer em um terreno fértil, aos poucos. De uma hora para outra, olhamos para trás e percebemos o quanto mudamos e amadurecemos. Mas isso não quer dizer que estejamos imunes aos erros ou infantilidades. Amadurecer não significa ser perfeito e a maturidade em si pode ter vários significados. Um deles é justamente a aceitação de nossas imperfeições.
Tom Waits em “Rumble Fish”
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