O problema viria dos aumentos artificiais na oferta monetária e vez dos aumentos na oferta do metal. Atividades geradoras de riqueza podem se sustentar sem a expansão inflacionária de dinheiro e crédito
De acordo com a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos (Tace), o aumento artificial da oferta monetária por meio de uma política monetária expansionista do banco central reduz a taxa de juros de mercado. Isso, por sua vez, faz com que a taxa de juros de mercado se desvie da taxa de juros natural, que é determinada pelo próprio mercado. Consequentemente, isso leva ao ciclo de expansão e recessão. Entendendo isso, sob o padrão-ouro, no qual o dinheiro é lastreado em ouro e, assumindo que não há banco central, um aumento na oferta de ouro também resultará na redução das taxas de juros de mercado.
Isso causaria um desvio das taxas de juros de mercado em relação às taxas anteriores. Consequentemente, isso iniciará um ciclo de expansão e contração. Isso significa que, mesmo sob o padrão-ouro, sem banco central, ainda poderíamos ter ciclos econômicos. Segundo o economista Bob Murphy:
“O boom insustentável ocorre quando uma quantidade recém-criada (ou minerada) de dinheiro entra no mercado de crédito e distorce as taxas de juros, antes que outros preços na economia tenham tempo de se ajustar. Em princípio, esse processo poderia ocorrer mesmo no caso de um dinheiro-mercadoria com sistema bancário com reservas correspondendo a 100% dos valores dos depósitos”.
Observe novamente que, segundo Murphy, o aumento da oferta de ouro também poderia colocar em movimento o ciclo de expansão e contração, embora Mises acreditasse que, na prática, essa possibilidade teórica teria um efeito praticamente insignificante.
Murray Rothbard discordou disso. Para ele, aumentos na oferta de ouro não poderiam desencadear o ciclo de expansão e contração. Para Rothbard, a razão fundamental por trás do ciclo é o ato de desfalque provocado pela política monetária expansionista do banco central, a qual inicia um aumento da oferta de dinheiro criado “do nada”. Segundo Rothbard:
“A inflação, neste trabalho, é explicitamente definida de modo a excluir aumentos no estoque de espécie (ouro ou prata). Embora esses aumentos tenham efeitos semelhantes, como elevar os preços dos bens, eles também diferem de forma acentuada em outros aspectos: (a) simples aumentos no estoque de espécie não constituem uma intervenção no livre mercado, penalizando um grupo e subsidiando outro; e (b) eles não conduzem aos processos do ciclo econômico”.
Seguindo esse raciocínio, o que de fato coloca em movimento o ciclo de expansão e recessão é o aumento artificial e inflacionário da oferta monetária. O aumento desse tipo de dinheiro desencadeia uma troca de “nada por algo” (isto é, o desvio de riqueza dos geradores de riqueza para aqueles que não a geram e para seus projetos). A política expansionista do banco central empobrece os produtores de riqueza e enriquece os primeiros recebedores do dinheiro e do crédito recém-criados. Para Rothbard, portanto, o ciclo de expansão e contração surge por causa das políticas expansionistas do banco central, que colocam em marcha esse ato de desfalque da moeda.
Um dos principais contribuintes para o processo inflacionário é a expansão do crédito pelos bancos comerciais. Esse tipo de crédito é viabilizado pela política monetária expansionista do banco central. Essa política monetária expansionista produz uma falsa prosperidade econômica — o chamado boom econômico. Quando a poupança limitada começa a sofrer pressão devido ao falso boom econômico, os bancos passam a acumular ativos problemáticos. Consequentemente, eles são obrigados a desacelerar a expansão do crédito artificial. Como regra, pressionados pela crescente inflação de preços, os bancos centrais também respondem apertando a política monetária. Os investimentos e empreendimentos pouco sólidos, dependentes da política monetária frouxa e artificial, não conseguem sobreviver à contração monetária. O resultado é uma contração econômica ou recessão.
É o ato de fraude que coloca em movimento o ciclo de expansão e contração por meio dos acréscimos inflacionários na oferta de dinheiro. Essa expansão artificial de dinheiro e crédito também é responsável pela inflação de preços.
O ouro e o ciclo de expansão e contração
A razão pela qual mineradores extraem ouro é porque existe um mercado para ele. O ouro contribui para o bem-estar subjetivo dos indivíduos. Nesse sentido, ele faz parte do estoque de riqueza.
Com o tempo, as pessoas descobriram que o ouro — originalmente útil na fabricação de joias — possui grande atratividade como meio de troca. Como resultado, elas podem passar a atribuir um valor de troca muito maior ao ouro do que antes. Assim, o aumento na oferta de ouro equivale a um aumento de riqueza, o que é distinto da natureza inerentemente artificial da inflação. Quando um produtor de ouro o troca por bens, ele está realizando uma troca de algo por algo. Ele está trocando riqueza por riqueza. O ouro recém-introduzido em um sistema requer produção e/ou troca.
Recibos de depósito falsos, dinheiro fiat ou meios fiduciários causam ciclos de expansão e contração
Contrastemos isso com os “recibos” não lastreados em ouro que são usados como meio de troca. Esses recibos foram emitidos sem que o ouro correspondente estivesse de fato depositado para custódia. Esses recibos geram o mesmo resultado que o dinheiro falsificado produz, porém em escala muito maior. Isso prepara o terreno para um aumento do consumo sem a correspondente contribuição para a produção ou para a poupança. Os certificados fiduciários não lastreados colocam em movimento uma troca de nada por algo, o que, por sua vez, distorce a estrutura de preços e a estrutura da produção, levando aos ciclos de expansão e contração.
Isso também prepara o terreno para um desfalque generalizado quando esses certificados passam a ser empregados em trocas por bens e serviços. Através dos sinais vindos do aumento das compras e dos investimentos, cria-se um boom econômico artificial. Quando esse processo desacelera ou cessa completamente, interrompe-se o desvio de riqueza para várias atividades que surgiram em decorrência da inflação. Como resultado, essas atividades ficam sob pressão e resultam em uma recessão econômica. Sem a inflação de dinheiro e crédito, que direciona riqueza para essas atividades, elas ficam em dificuldade. Sem dinheiro fácil, essas atividades não conseguem sobreviver ou continuar na mesma intensidade atual.
Por contraste, no caso de um aumento na oferta de ouro, não há fraude envolvida. O fornecedor de ouro — a mina de ouro — aumentou a produção de uma mercadoria demandada. Portanto, nesse caso, não há troca de nada por algo. O produtor de ouro, ao produzir algo que é demandado no mercado, pode trocá-lo por outros bens. Ele não cria dinheiro vazio para desviar riqueza de forma fraudulenta para si mesmo. Assim, podemos concluir que o padrão-ouro, se não for abusado, não é um sistema propenso a ciclos de expansão e contração. O padrão-ouro não tem relação com desfalque monetário.
Dito isso, tanto o aumento inflacionário da oferta monetária quanto o aumento da oferta de ouro vão gerar mudanças nas relações de preços e possivelmente na taxa de juros de mercado. Porém, essa adição de ouro não desencadeia o ciclo econômico. Um ciclo de expansão e contração, por sua própria natureza, é gerado por acréscimos artificiais à oferta de dinheiro.
Se a mudança na taxa de juros ocorre devido a um aumento na oferta de ouro — o que representa um aumento de riqueza —, então não surgirá um ciclo econômico. No entanto, efeitos Cantillon irão ocorrer. Um aumento na oferta de ouro pode fazer com que os preços e a taxa de juros de mercado mudem, e isso provavelmente causará flutuações na atividade econômica. Entretanto, ciclos de expansão e contração não dizem respeito a flutuações de mercado em condições livres; eles dizem respeito à política monetária inflacionária.
Os ciclos de expansão e recessão são gerados por um ato de fraude monetária. Tais ciclos envolvem o desvio de riqueza dos verdadeiros geradores de riqueza para os detentores do novo dinheiro artificialmente criado. Em uma economia de livre mercado, ocorrem mudanças contínuas e não existe estabilidade absoluta, mas isso não equivale às perturbações causadas pelo intervencionismo monetário.
Conclusão
O fator central para o surgimento dos ciclos econômicos são os aumentos inflacionários na oferta monetária. Esses aumentos colocam em marcha uma troca de nada por algo (isto é, mudanças nas relações de preços, desvio de riqueza e distorções na estrutura de capital).
O aumento na oferta de ouro não é a mesma coisa. O aumento na oferta de ouro é um aumento na oferta de riqueza e produção. Esse aumento não conduz à troca de nada por algo.
Ao contrário de atividades não geradoras de riqueza e economicamente pouco sólidas, atividades verdadeiramente geradoras de riqueza podem se sustentar sem a expansão inflacionária de dinheiro e crédito para desviar riqueza para si mesmas. São os aumentos artificiais na oferta monetária, e não os aumentos na oferta de ouro, que trazem a ameaça do ciclo de expansão e contração.
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Por Frank Shostak
