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Lô Borges e o girassol que marcou a minha vida

Aluizio Falcão Filho
9 de novembro de 2025

Conheci a obra do mineiro Lô Borges, como a maioria dos brasileiros: ouvindo o disco Clube da Esquina, gravação que ele dividiu com Milton Nascimento. Escutei esse álbum duplo, na casa de amigos, quando tinha dezesseis anos (eram dois LPs, algo bem caro para quem recebia mesada). Conhecia Milton Nascimento, mas não sabia direito quem era Lô Borges, que dividia os créditos na capa com o Bituca.

O dono da casa pegou o primeiro disco e, sem querer, colocou o lado B para tocar primeiro. Era “Dos Cruces”, na voz de Milton. Bonita, mas não me emocionou. Logo a seguir (sim, tínhamos o hábito de ouvir um álbum inteiro, faixa por faixa – algo impensável nos dias de hoje), começou um piano que me arrebatou. E meu coração bateu mais forte quando ouvi o primeiro verso da canção: “Vento solar e estrelas do mar/A terra azul da cor de seu vestido”. Era uma melodia fácil, com clima de mistério e romantismo, daquelas que fazem a mente divagar imediatamente. Com um toque de rock progressivo.

Fiquei ouvindo mesmerizado aquela faixa, até que, bem no meio, houve uma interrupção. Teve início, então, um arranjo de cordas (que, mais tarde, descobri ser de Eumir Deodato), seguido por um piano que parecia começar outra canção, com versos que tinham nada e tudo a ver, ao mesmo tempo, com a letra de antes: “O meu pensamento tem a cor de seu vestido/ Como um girassol que tem a cor de seu cabelo”.

Ouvimos o resto do lado B e viramos o vinil. Adorei a primeira faixa, na voz de Milton. Lembro que a letra me deixou pasmo – aquela sensação que temos quando uma canção diz exatamente o que você sente naquele momento. Achei que a composição era do Milton, mas vi nos créditos da capa que a autoria era de Lô e de seu irmão, Márcio. Era “Tudo o que Você Podia Ser”. A faixa seguinte, “Cais”, era de Milton e gostei. Mas desmontei quando os primeiros acordes de “O Trem Azul” começaram a toca na caixa acústica.

Uma sensação de bem-estar me tomou logo na introdução, algo que nunca havia sentido antes, e a voz de Lô Borges me vez viajar naquela letra despretensiosa. No placar das músicas favoritas daquele álbum, Lô derrotou Milton por 2 (“Girassol” e “Trem”) a 1 (“Nada Será Como Antes”).

Essa tarde com meus amigos vai ficar na minha memória, assim como um sábado de manhã, vários meses depois, quando cheguei na casa de uma namorada da época e ela tinha acabado de comprar o LP “A Via Láctea”, de Lô. Por coincidência, a moça colocou para tocar primeiro o lado B. E foi um petardo. A sequência das quatro primeiras músicas me deixou meio pasmo: “Equatorial”, “Vento De Maio”, “Chuva Na Montanha” e uma regravação de “Tudo Que Você Podia Ser” (melhor que a versão de Milton). No lado B, outro “cover”: “Clube da Esquina no. 2”.

E é esta última música, cuja letra é do irmão Márcio, que sempre me fez recordar de Lô Borges, que foi ao andar de cima no início desta semana. São versos que me lembram do adolescente que já fui, com a alma sem manchas e o coração aberto:

Porque se chamavam homens
Também se chamavam sonhos
E sonhos não envelhecem

Hoje, ao revisitar essas lembranças embaladas por acordes e versos, percebo que Lô Borges não foi apenas um compositor brilhante — ele se transformou em uma espécie de guia sonoro para a minha adolescência. Suas canções me ensinaram que a beleza pode ser simples e que a música tem o poder de eternizar sentimentos. É por isso que Lô está vivo nestes momentos gravados em minha memória. Enquanto houver ventos solares e estrelas do mar, sua arte continuará batendo forte em meu peito. Descanse em paz, meu caro Salomão Borges Filho.

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Comentários

Respostas de 9

  1. Grande Lô Borges emocionou minha adolescência: músicas simples e que acompanhei em cada fase da minha vida.

  2. Sr.Jornalista e Escritor Aluizio Falcão Filho

    Acredito que a sensibilidade tão presente em vc, te fez reconhecer e se identificar de imediato com tão nobres músicos – Milton, Lô e Márcio Borges, Beto Guedes – e viver esse turbilhão de vida e bem estar que nos envolve ao som de suas músicas e, de tantas outras também. Que o Senhor e Maria Ss Abençoem vc e sua família. Obgda por seu lindo artigo: tão intenso, mas de uma leveza agraciada, pertencente aos também nobres escritores.

  3. Adorei não, amei seu post…São tantas vivências, depoimentos de pessoas falando do nosso querido Lô que vão ganhando a compreensão da dimensão de corações e sentimentos que a música dele impactava em milhares de pessoas. Que gratidão termos vivido na mesma época desse gênio da música.

  4. Lô é desse artistas que, mesmo sem vender milhões de discos e alcançar um sucesso de massa, revolucionaram a música brasileira. O poder de sua obra é tão avassalador que conseguiu fazer isso, sem ceder aos apelos mercadológicos. Lô mudou os rumos da canção no Brasil sem mudar o rumo de sua música. Isso faz dele um gênio.

  5. Lô Borges: Lembranças de suas músicas na minha mente,desde a minha adolescência, músicas cantadas em nossas rodinhas de violão à noite nos acampamentos,de suas músicas em nossas festinhas…Infelizmente agora…”Chegou de repente…O fim da viagem…Agora já não dá mais pra voltar atrás…”
    Lô… Eternamente em meu coração ❤️

  6. Que depoimento emocionante, realmente Lô Borges é e será com a sua música em forma de poesia nos encanta e nos aquece a alma, para sempre…..Lô Borges!!!

  7. Faço minhas, suas palavras❤️ foi exatamente o que sentia risco ouvia Lo com 14 , 15 anos. E pedi o álbum via láctea de presente de amigo oculto da família naquele ano, se perguntaram : quem é esse cara? Kkkk

  8. Tudo escrito é pouco diante da grandeza que foi Lô Borges com suas composições e por ele cantadas. Jamais ví algo tão belo e emocionante que foram suas músicas. Sou fã como vcs e sempre serei mesmo depois que ele nos deixou, talvez para um lugar bem melhor. Que Deus abençõe eternamente. 💔

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