Conheço William Bonner há mais de quarenta anos, desde quando entramos na mesma turma de calouros da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Já naquela época chamava a atenção pela voz grave e modulada e pelo senso de humor.
O apelido dele era “Billy” entre os colegas e sempre foi muito querido, embora não fosse exatamente popular. Ele e seus amigos mais próximos formavam a facção mais nerd daquela turma – embora esse fosse um conceito bastante flexível para uma faculdade de comunicação nos anos 1980.
O jovem “Billy” nem sonhava ser um ícone do jornalismo televisivo naquela época. Tanto é que resolveu estudar propaganda e publicidade, chegando a fazer estágio em uma agência. Mas havia um grupo de colegas que sempre o incentivou a usar sua voz como instrumento de trabalho. Posso dizer que fui um deles.
Os alunos de Radio e Televisão sempre recorriam aos seus préstimos e ele era o locutor oficial de praticamente todas as produções feitas naqueles anos no prédio da Antiga Reitoria, onde ficavam os estúdios da faculdade.
Quando estávamos no terceiro ano, ouvi uma fita na qual ele fazia a locução. Fiquei muito impressionado e disse a ele: “Você deveria estar no rádio ou na televisão”. Quando era estudante, meu pai trabalhava na Rádio Eldorado e fui pedir a ele que deixasse meu colega de faculdade fazer um teste para locutor na emissora.
O velho Aluizio topou e lá fomos eu, Billy e sua namorada da época para o estúdio. Antes, almoçamos no apartamento onde ele vivia com os pais, em Higienópolis. Foi nessa conversa que descobri uma coincidência: ele havia estudado com meu vizinho de infância, Marcelo Albuquerque, no ensino médio do Mackenzie. O teste foi um sucesso e meu pai colocou Billy na lista de profissionais que seriam considerados para eventuais vagas.
Neste mesmo tempo, outra colega, a Eliana Sanches, que depois faria uma carreira vitoriosa na Editora Abril, o chamou para outro teste. Ela fazia um estágio na TV Bandeirantes e o programa no qual trabalhava (“Variety”, se não me engano) precisava de uma boa voz para fazer as locuções em “off”. Ele passou e rapidamente estava apresentando um telejornal da Band.
Neste meio-tempo, meu pai o chamou para fazer um horário na Eldorado. Sua carreira como locutor começava a deslanchar. Mas foi aí que o então vice-presidente de operações da TV Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o viu na tela da Bandeirantes. E o chamou para apresentar um jornal local na Globo. O resto é história: ele se tornou, em 2025, o profissional que mais apresentou o Jornal Nacional. Foram 29 anos à frente do noticiário de maior audiência do Brasil.
A partir de amanhã, Billy não apresentará mais o JN, sendo substituído por César Tralli. Vai para o Globo Repórter e, com isso, talvez não atraia tanto a raiva dos telespectadores que não concordam com a linha editorial da Globo.
Nas redes sociais, ele foi acusado inúmeras vezes de ser petista. Mas, na Globo, ninguém faz jornalismo autoral. Há uma forte hierarquia na emissora e Bonner, como todo profissional da casa, tinha de seguir as diretrizes ditadas pelo Conselho Editorial, presidido por João Roberto Marinho. Acima de seu cargo, sempre houve um ou dois escalões que determinavam os caminhos que o jornalismo deveria seguir. Portanto, se os leitores deste artigo não concordam com o estilo jornalístico da TV Globo, saibam que seus critérios não foram estabelecidos pelo apresentador do JN.
Estivemos juntos pela última vez na ocasião em que fizemos a foto que ilustra esse artigo. Tive uma reunião na sede da Globo, no Jardim Botânico, e trocamos mensagens pelo WhatsApp. Ele me ensinou o caminho da sala onde estava para os estúdios do Jornal Nacional. “Me avisa quando você chegar, pois tem uma catraca na entrada”, ele escreveu.
Findo o meu encontro, segui as instruções, cheguei na porta do estúdio e o avisei. Estava lá esperando quando um segurança bem musculoso se aproximou, me chamou de “meu chapa” e perguntou o que eu fazia lá. Respondi que estava esperando o William Bonner. Ele deu um risinho irônico e pediu que eu o acompanhasse. Nessa hora, uma voz ribombante surgiu da entrada.
– Amigo, ele está comigo. Vou abrir aqui a catraca.
Era o Billy, que tinha percebido a intenção do segurança em me enxotar dali. O brutamontes arregalou os olhos e respondeu, trêmulo:
– Aí, chefia, eu já estava liberando a entrada dele…
Entramos e caímos na gargalhada.
Ao escrever essas linhas, percebo que, naquela classe que frequentamos, havia garotos e garotas com enormes expectativas sobre o que iriam realizar em suas carreiras. Muitos sonharam alto e não conseguiram chegar lá. O rapaz que naquela época assinava seu nome como William Bonemer Júnior estava entre aqueles que não pensavam em ser uma celebridade jornalística. Mas esse foi o seu futuro.
E assim, Billy encerra um capítulo que ajudou a escrever a história da televisão brasileira. Para mim, ele continuará sendo aquele colega de voz marcante e riso fácil, que atendia aos chamados dos amigos nos estúdios da faculdade com generosidade e talento. O jornalismo muda, os rostos na tela também, mas algumas presenças permanecem como referência — e William Bonner é uma delas. Boa sorte, Billy. Que venham novos roteiros, novas histórias e, quem sabe, mais gargalhadas entre velhos amigos.