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Violência policial: a esquerda duvida das pesquisas

Aluizio Falcão Filho
2 de novembro de 2025

O Brasil é, definitivamente, o país das bolas trocadas. De uns tempos para cá, membros da direita nacional passaram a defender bandeiras que, no passado, tiveram início na esquerda: anistia, liberdade de expressão e transparência nas contas públicas. O cúmulo deste paradoxo foi um grupo de pessoas que, em manifestação bolsonarista na Avenida Paulista, cantou “Caminhando”, um hino esquerdista que era entoado pelos opositores à ditadura militar.

Mas a direita, de uns tempos para cá, passou a duvidar de todas as pesquisas eleitorais – sempre aquelas que colocavam os candidatos esquerdistas à frente de seus nomes favoritos. Agora, no entanto, vimos as posições serem trocadas. Chegou a vez de uma parte da esquerda duvidar de uma enquete incômoda.

Depois da megaoperação policial no Complexo do Alemão e na Penha, no Rio de Janeiro, observou-se uma saraivada de críticas à letalidade da ação, que matou 121 pessoas. Uma carta assinada por 27 entidades que defendem os direitos humanos no Brasil, por exemplo, defendeu que o governador fluminense, Cláudio Castro, está à frente de “um projeto político de extermínio travestido de combate ao crime”.

A imprensa, de maneira geral, criticou a ação da polícia do Rio. E o governo federal soltou um vídeo nas redes sociais no qual há um trecho em que se diz o seguinte: “Matar 120 pessoas não adianta nada. Mesmo se forem todos bandidos, amanhã tem outros 120 fazendo o trabalho”.

Havia, portanto, uma expectativa de que a opinião pública fosse reagir negativamente aos atos violentos da polícia nas comunidades cariocas. Não foi, porém, o que aconteceu.

A pesquisa da AtlasIntel divulgada na última sexta-feira mostrou que 55,2% dos brasileiros aprovam a operação, enquanto 42,3% desaprovam. Mas o apoio entre os moradores do Rio de Janeiro é ainda maior: são 62,2% os que suportam esse tipo de ação. Nas favelas cariocas, no entanto, o resultado é acachapante: 87,6% dos moradores manifestaram apoio à ação policial, que visava combater o Comando Vermelho.

Diante de números tão impactantes, qual foi a reação de alguns líderes da esquerda? Duvidar da idoneidade da pesquisa.

Esse é um comportamento clássico: quando vivemos em uma bolha na qual todos falam o mesmo que nós, não conseguimos compreender a existência de um grupo que pensa diferente. O que resta, neste caso? Rejeitar a realidade. Até então, isso ocorria com frequência no território das pesquisas eleitorais e a direita – algo que sempre foi criticado pela esquerda. O jogo, no entanto, mudou.

Lembremos que uma pesquisa recente mostrou que os esquerdistas brasileiros são mais brancos, ganham mais e têm mais educação que a média dos brasileiros. E talvez por isso pensem de maneira diferente. O resultado desta enquete, no entanto, é reflexo direto daquele ditado que diz: “pimenta nos olhos dos outros é refresco”. Aqueles que sofrem o assédio diário do crime organizado nas comunidades apoiam incondicionalmente uma ação enérgica contra o tráfico. Já quem mora longe das áreas de conflito acha um absurdo a ação policial.

A surpresa da imprensa diante do apoio popular à operação policial no Rio de Janeiro revela uma desconexão profunda entre os formadores de opinião e a realidade das comunidades afetadas pela violência. Muitos jornalistas e analistas partiram do pressuposto de que os moradores das favelas compartilhariam automaticamente das críticas feitas por setores progressistas, ignorando que a experiência cotidiana nessas áreas é marcada por medo, abandono e domínio do crime organizado.

Quando a única presença do Estado é a polícia, mesmo que de forma dura, ela pode ser vista como uma resposta concreta ao caos. Esse apoio, no entanto, não deve ser interpretado como um endosso irrestrito à violência policial. Trata-se, antes, de um grito por algum tipo de intervenção que interrompa o ciclo de terror imposto pelo tráfico. É uma reação de quem vive sob constante ameaça e não tem a quem recorrer.

É justamente aí que a esquerda precisa rever suas estratégias. Em vez de discursar sobre o povo, talvez seja hora de falar com ele. Ouvir mais, abandonar certezas ideológicas e se abrir ao que as comunidades realmente querem. A esquerda que se pretende popular não pode ignorar a voz de quem vive nas periferias. Se quiser continuar relevante, precisa reaprender a escutar.

Feitas as contas, quem vive o cotidiano da violência quer soluções, não discursos. E quem se diz defensor do povo precisa estar disposto a encarar a realidade com menos dogmas e mais humildade.

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