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Quando a ficção conta uma história que poderia ser sua

Aluizio Falcão Filho
14 de dezembro de 2025

No início deste mês, li um livro que me fez pensar bastante sobre minha trajetória de vida: Dakota Blues, de Simone AZ. O texto parece ser autobibliográfico e narra a história da jornalista Alice, de sua infância à maturidade. Eu e Simone somos da mesma geração e nascemos em datas separadas por alguns meses. Crescemos em famílias de classe média em São Paulo e, por isso, tivemos vidas relativamente parecidas.

Não me identifico muito com a personagem principal. Mas seus momentos marcantes são bem similares aos meus. Do mesmo jeito que o filme “Forrest Gump” (imagem) conta uma jornada pessoal que ajuda a mostrar a história americana dos anos 1950 à década de 1980, “Dakota Blues” tem um efeito semelhante para a minha geração. Vários fatos importantes das últimas cinco décadas estão na narrativa e há algumas experiências de Alice que são um repeteco daquilo que está em minha memória.

Em um determinado momento, Simone fala sobre a sala da casa da personagem principal, palco de tantas passagens importantes para aquela família. Imediatamente me lembrei da sala de estar da casa onde cresci, na qual minha irmã deu os primeiros passos dela, eu e meu irmão vivíamos puxando o cabelo um do outro, li o meu primeiro livro de verdade (“A Ilha do Tesouro”, de Robert Louis Stevenson), ouvi o disco que iniciou minha coleção (“Goodbye Yellow Brick Road”, de Elton John) e centenas de outras coisas.

Há uma frase que também mexeu comigo: “Aqui cada quarto é uma casa”. Sentia exatamente isso quando estava na adolescência e durante a faculdade. O convívio nas áreas comuns não era muito frequente – e os quartos eram os cômodos mais usados daquela casa.

Lá pelas tantas, a autora se lembra de algo que apareceu com destaque nas casas de todas as famílias de classe média: o vinho alemão de garrafa azul (uma invenção do empresário Octavio Piva de Albuquerque, da importadora Expand), tão doce quanto o conteúdo daqueles garrafões de fermentados licorosos de São Roque.

Simone também narra a manhã na qual ela soube da morte de John Lennon, ocorrida no dia anterior. Foi uma repetição do que ocorreu comigo: a notícia que chegou pelo rádio, causando espanto, revolta e tristeza. Não necessariamente nesta ordem. Um pouco depois, ela relata as sensações vividas ao assistir o show da banda Queen, no estádio do Morumbi (naquela época, não havia os chamados “naming rights”). Um testemunho que eu poderia assinar embaixo. Ainda me lembro da hora em que todo mundo cantou “Love of My Life” junto com Freddie Mercury, com as vozes de 130.000 pessoas ribombando nas estruturas do campo do São Paulo.

O livro também fala do início da propagação da Aids em meados da década de 1980 e foi impossível não me recordar dos amigos gays que foram levados pela doença. Tenho saudade de um em particular: Antonio Marco de Souza, o Marquinhos, que era deejay da casa noturna Madame Satã.

Há uma sequência na qual a personagem está no Rio de vai a um bar em Botafogo. Parece que está narrando o que ocorreu comigo na mesma época, só que em um boteco na Lagoa, o Mistura Fina. Simone também cita músicas que eu adorava nas décadas passadas e das quais ainda gosto: “Close to me”, da banda The Cure, e a clássica “Isn’t she lovely?”, de Stevie Wonder.

Poderia ficar citando várias outras coincidências entre minha vida e aquela narrada pela autora de “Dakota Blues”, mas vou destacar a última: a sensação que é narrada ao experimentar as baixas temperaturas de Nova York pela primeira vez. “O frio jogou um bafo na minha cara. Um frio como eu nunca havia sentido antes atravessou minha pele e fez microbolinhas”, escreveu a autora na página 129.

Comigo não foi diferente. O frio novaiorquino é seco, ao contrário do que experimentamos em São Paulo, e o vento encanado pelas ruas numeradas pode ter um efeito torturante nas pessoas que cresceram longe das zonas temperadas. Mas é um desconforto com o qual se acostuma rapidamente, especialmente por conta da calefação que está a mil no interior de apartamentos e estabelecimentos comerciais.

Talvez seja isso que mais me tocou em “Dakota Blues”: a capacidade de transformar lembranças pessoais em espelhos coletivos. Ao conhecer a trajetória de Alice, acabei revisitando a minha. E, mesmo sem me ver diretamente na personagem, me enxerguei nas entrelinhas, nos objetos, nas músicas, nos silêncios e nas perdas. Ler o livro foi como folhear um álbum de fotos que eu não sabia existir — e que, de alguma forma, também conta a minha história.

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