No fim de semana passado, minha filha insistiu para que a família toda visse a série “Monster”, da Netflix, diante do frisson que a produção causou nas redes sociais. Trata-se de um seriado que sempre retrata um serial killer e que, na atual temporada, apresenta o fazendeiro Ed Gein, que matou oficialmente três pessoas e desenterrou vários cadáveres no cemitério de Plainfield, Wisconsin. Um tema nada singelo para se maratonar em família. Mesmo assim, o resultado é hipnotizante, apesar do roteiro macabro e da quantidade de atos bizarros que se vê na tela. Não é à toa que o seriado está entre os mais vistos da Netflix na atualidade. Os números de sua estreia foram sólidos: 12,2 milhões de visualizações em 3 dias, o mesmo índice obtido pela primeira temporada de “Narcos”.
Confesso que nunca tinha ouvido falar em Ed Gein, mas já conhecia, digamos, a sua obra. É que já havia assistido três filmes cujos psicopatas são baseados em seu modus operandi. São eles: “Psicose” (1960 — imagem), “O Massacre da Serra Elétrica” (1974) e “O Silêncio dos Inocentes” (1991). No caso deste último filme, ele inspirou o assassino serial e uma parte da trama, na qual os investigadores pedem auxílio ao vilão Hannibal Lecter (vivido magistralmente por Anthony Hopkins) para resolver os assassinatos que ocorrem no interior da Pensilvânia (Gein foi acionado algumas vezes pelo FBI para explicar a mente dos serial killers que se basearam em sua conduta).
O fascínio por crimes reais e pela mente dos psicopatas é um fenômeno intrincado, que atravessa camadas profundas da psique humana e reverbera na cultura que nos cerca. Mas por que somos atraídos por isso?
O gênero “true crime” escancara um dos maiores tabus da civilização: o assassinato, o mal em estado bruto. Nos sentimos desconfortáveis ao ver essas cenas, mas vamos em frente. É como se assistíssemos essas monstruosidades através de uma espécie de uma janela segura. Como aquilo que nos impele a entrar em um trem fantasma. Mas provavelmente não seja apenas curiosidade mórbida. Talvez, assistindo essas narrativas, queiramos entender a lógica da psicopatia.
Desde os anos 1950, somos bombardeados com histórias de crime, alimentando uma obsessão que cresce na mesma medida em que nossos medos se tornam mais reais. Os psicopatas são as grandes estrelas nesse show. O que nos intriga é justamente isso: como alguém aparentemente normal, até carismático, pode esconder um lado sombrio e perturbador. É o arquétipo do monstro disfarçado de pessoa comum.
Não por acaso, séries como “Monstro: A História de Ed Gein” fazem tanto sucesso. Elas exploram esse território ambíguo entre o medo e a curiosidade, entre o desejo de compreender e o horror do incompreensível. Ed Gein, que inspirou ícones do terror cinematográfico, encarna essa dualidade: um homem comum que se perdeu em um abismo moral e psicológico.
O fascínio por crimes reais e psicopatas pode ser um espelho? Será que esses filmes e seriados nos forçam a encarar nossos próprios medos, a sondar os limites do comportamento humano e o lado maligno da sociedade?
Talvez o verdadeiro impacto destes filmes e séries não esteja apenas no horror que provocam, mas naquilo que revelam sobre a humanidade. O monstro que se esconde atrás da aparente normalidade não é apenas aquele personificado por Ed Gein, nem os personagens que ele inspirou. É a possibilidade inquietante de que o mal não tem rosto definido — pode se manifestar através de alguém gentil que vive na casa ao lado.
A atração que muitos indivíduos têm por histórias de psicopatas e crimes reais pode ser uma tentativa de domesticar o caos ou controlar o incontrolável. Na distância segura entre o sofá e a tela, entre o fato e a ficção, nos sentimos confortáveis para testemunhar barbaridades que não toleraríamos na vida real.
No fundo, o monstro que nos assusta mais profundamente não é aquele que vive nos porões e tem feições medonhas ou diabólicas. É aquele que tem aparência comum, sabe sorrir e pode estar convivendo secretamente conosco em nosso cotidiano.

Charlie Hunnam como Ed Gein na série “Monster”, da Netflix