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A literatura como vingança

Aluizio Falcão Filho
19 de outubro de 2025

Outro dia, topei com a seguinte declaração da escritora Annie Ernaux, vencedora do prêmio Nobel de literatura: “Escreverei para vingar a minha raça”. Ela registrou essa promessa em seu diário de juventude. Sua intenção seria, naquela época, entrar no mundo da literatura para combater as classes mais ricas e denunciar um mecanismo social que exclui, humilha e invisibiliza os pobres e as mulheres.

No discurso em que aceitou o Nobel, Ernaux deixou claro: sua “vingança” não mira os ricos como indivíduos, mas o sistema que ergue muros entre quem manda e quem obedece. Este sistema humilharia gente como ela, de origem simples. Sua obra, assim, seria uma forma de expor violências sociais e dar voz e dignidade aos que vivem nas margens da sociedade.

Os livros de Annie Ernaux (na imagem, em foto tirada nos anos 1960), no entanto, não são panfletários. Ela mergulha nas próprias memórias, nas relações familiares, na sexualidade, no cotidiano, usando um estilo enxuto e introspectivo, quase analítico. Ela usa passagens autobiográficas para expor desigualdades de uma forma que passa longe da militância. Isso pode ser percebido em “Memória de menina”, de 2016, que acaba de ser lançado no Brasil.

As desigualdades, assim, aparecem como se fossem um ruído de fundo ou uma trilha sonora, complementado a narrativa. Há sempre tensão nas páginas, pois temas como mobilidade social, choque de classes, abismos culturais e linguísticos estão sempre presentes. Os personagens, muitas vezes, respeitam uma distância afetiva criada pelo dinheiro e pelos diplomas. A autora já disse que essa dinâmica moldou sua identidade, seus laços familiares e sua condição de “trânsfuga de classe”.

Como uma “trânsfuga”, Ernaux percebe que não se encaixa completamente nem em seu meio de origem — por ter adquirido novo vocabulário, valores e modos de vida — nem na elite intelectual, por carregar marcas do passado e maneiras que não são naturais aos mais ricos. Essa experiência leva a um dilema profundo: uma desconexão com as raízes que traz constantes questionamentos.

A escritora francesa não busca convencer ninguém. Seus textos são produzidos para que os outros entendam como foi sua vida na pobreza. A desigualdade aparece sem vitimismo, mas como uma presença constante, silenciosa, que contamina escolhas, relações e traumas. Ernaux não se vinga com discursos inflamados. Sua vendeta se dá através das palavras. E ao escrever, dá forma e valor à experiência daqueles que vieram de baixo.

São poucos os que conseguem fazer isso com talento e sensibilidade, até porque são raros aqueles que se aventuram pela literatura. Para a maioria das pessoas, o que sobra de uma experiência como a de Ernaux é o ressentimento. Às vezes, essa ferida emocional provoca nas pessoas uma conduta cheia de amargura e agressividade; em outras, pode gerar um comportamento com atos contínuos de ostentação e opulência.

Mas Ernaux escolheu outro caminho: ela transformou sua ferida em linguagem. Escreveu para entender o seu passado, sem ódio. Sua vingança é feita de frases cortantes, mostrando a complexidade de seus sentimentos. E talvez seja justamente aí que reside sua força: na coragem de descrever o que muitos sentem, mas poucos ousam dizer.

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Comentários

Uma resposta

  1. É bom ver relatos de pessoas simples e pobres que evoluíram sem culpar ou ter raiva de quem teve melhores condições.

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