Filho de pescador, Tiago Nunes transformou fungos nativos em solução para regenerar solos, o que pode reduzir em até 40% o uso de defensivos sintéticos em pequenas propriedades
O engenheiro agrônomo Tiago Calves Nunes, pesquisador da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), foi o grande destaque do Prêmio Finep de Inovação 2025, ao vencer na categoria Deep Tech com um projeto de doutorado que uniu ciência e sustentabilidade.
Tiago desenvolveu o Pantabio, o primeiro biopesticida à base de fungos nativos do Pantanal, criado a partir de cepas do gênero Trichoderma, altamente resistentes ao calor e à umidade da região. O produto atua regenerando o solo ao controlar pragas de forma natural competindo com patógenos e parasitando outros fungos prejudiciais às plantas, como os Fusarium e Rhizoctonia solani. Como resultado há melhor reciclagem de nutrientes e melhora da retenção de água, o que favorece o crescimento das raízes. Conhecido como mal-do-panamá, o Fusarium causa grandes perdas na produção de bananas e pode permanecer no solo de uma área por 30 anos.
Filho de pescador e de dona de casa, ele foi o primeiro da família a chegar ao ensino superior e hoje lidera uma pesquisa que promete melhorar a agricultura pantaneira. “Meu pai tirava o sustento das águas do Pantanal. Eu cresci vendo o impacto das mudanças climáticas e do uso excessivo de químicos nas plantações. Esse trabalho é uma forma de devolver dignidade aos produtores e de provar que a ciência pode nascer do interior do Brasil”, disse o pesquisador, emocionado ao receber o troféu.
O projeto nasceu dentro da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS) e deu origem a uma startup de bioinsumos agrícolas sediada em Aquidauana (MS). Hoje, o biopesticida já está em fase de validação comercial e tem potencial para reduzir em até 40% o uso de defensivos sintéticos em pequenas propriedades. “Quando a pesquisa gera emprego e melhora a vida das pessoas, cumpre seu papel”, completou Tiago.
O presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Luiz Antônio Elias, destacou que iniciativas como a de Tiago representam o objetivo central do prêmio: descentralizar a inovação e valorizar talentos fora dos grandes centros. “O Pantanal é um berço de biodiversidade e agora também um polo de conhecimento”, afirmou. Vinculada ao Ministério da Ciência, a Finep fomenta ciência, tecnologia e inovação em empresas, universidades, institutos tecnológicos públicos e privados.
A startup Pantabio foi incubada pela Fênix, a incubadora de empresas de base tecnológica da UEMS. Além da categoria Deep Tech, outras seis definidas pela Finep reconheceram soluções em áreas como agroindústria, saúde e energia. A edição deste ano marcou o retorno do prêmio após uma década.
