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O cancelamento dos ricos?

Aluizio Falcão Filho
5 de outubro de 2025

Nos últimos dez dias, algumas pessoas que respeito intelectualmente me falaram de um best-seller que divaga sobre o comportamento dos ricos no Brasil. Ao ouvir sobre algumas opiniões que estariam estampadas no texto, retruquei que a visão do autor talvez estivesse contaminada por um preconceito contra os endinheirados.

Movido pela curiosidade, fui ler o tal livro. Vi um desfile de personagens neuróticos, invejosos e preconceituosos. Pessoas deslumbradas, financistas arrogantes e membros desmiolados do jet-set nacional. Boa parte desses indivíduos são novos-ricos.

Mas aqueles que vêm de famílias tradicionais ou endinheirados adeptos do “quiet luxury” são retratados de maneira similar: exalam futilidade e falta de intelecto. De maneira geral, esses ricos são ignorantes que não sabem distinguir a CBN (uma estação de rádio) da CNN (uma emissora de TV) e tratam os empregados como se fossem objetos ou coisa pior. Algumas personagens femininas destilam o desprezo pela pobreza e são retratadas como discípulas menos letradas de Odete Reutemann.

Miami é apresentada como uma espécie de paraíso dos magnatas — algo muito longe da realidade. Há uma ideia recorrente nas páginas: apresentar obsessão dos argentários em mostrar seus sinais exteriores de riqueza.

Gente fútil e desmiolada, evidentemente, existe em todas as classes sociais – e esse extrato pode aparecer mais facilmente nas elites econômicas do país. Mas, ao ler a narrativa, a impressão que se tem é a de que na camada mais alta da pirâmide econômica só existem pessoas tomadas pela futilidade, pela arrogância e pelo desprezo àqueles que não têm dinheiro. Uma versão piorada e adulta do elenco do filme “As Patricinhas de Beverly Hills”.

Ao terminar o livro, lembrei-me de uma frase do filósofo Friedrich Nietzsche: “Não existem fatos, apenas interpretações”. Para ele, a realidade não se apresenta de forma neutra ou objetiva, mas sempre mediada por valores, crenças e contextos históricos. O que chamamos de “fato”, inclusive, pode ser algo moldado pelo viés específico de alguém que testemunhou um acontecimento. Essa visão desafia a noção tradicional de verdade como algo absoluto e abre o caminho para uma filosofia que valoriza a multiplicidade de olhares e o caráter provisório do sentido das coisas.

Por dever profissional, converso com milionários e bilionários desde o início de minha carreira, como repórter da Gazeta Mercantil. Muito jovem, tive de entrevistar banqueiros, empresários e investidores. Na redação da revista EXAME, tive mais um round neste convívio involuntário. Durante duas ocasiões, trabalhei em uma publicação que ranqueia as pessoas mais ricas do Brasil e republica uma lista internacional com bilionários. Por fim, em MONEY REPORT, conduzo eventos e entrevistas com a presença dos empresários e empresárias mais abastados do Brasil.

A minha interpretação, como diria Nietzche, é bem diferente daquela que li nesta semana. Boa parte de meus interlocutores atuais é de gente que constrói a riqueza nacional. Essas pessoas não são fúteis e muitas delas estão preocupadas com a desigualdade social que assola o país. Muitos resolveram doar parte de suas fortunas, investir em educação ou apoiar projetos sociais sérios. De qualquer forma, se queremos uma sociedade mais justa, não seria mais eficaz engajar os ricos da discussão sobre soluções para o problema do que excluí-los do debate?

A publicação defende a tese de que os ricos não se assumem como tal, pois sempre haverá alguém mais ricos que eles. Isso até pode ser verdade, pois alguém que possui R$ 200 milhões terá muito menos recursos daquele que tem R$ 20 bilhões. Mas, em termos de estilo de vida, esses dois ricaços levarão uma vida muito igual.

O cotidiano de um empresário no Brasil é brutal. As oscilações econômicas são fortes, a política interfere demais no cenário dos negócios e os juros quase sempre estão em patamares estratosféricos. Os homens de negócios não têm tempo para picuinhas ou arroubos de estrelismo.

Por incrível que possa parecer, as famílias desses homens e mulheres – em grande parte dos casos – tem um perfil semelhante. Temos um grupo em nossa iniciativa, chamado Next Generation, que reúne filhos e filhas de nossos filiados. São jovens empreendedores. Alguns buscaram seu próprio caminho fora do negócio familiar. Outros seguem regras rígidas de governança das empresas de seus pais, mães, avôs e avós: estudam em faculdades de primeira linha, fazem pelo menos um mestrado e precisam cumprir uma quarentena obrigatória, trabalhando em outras companhias antes de ingressar nas companhias controladas por seus parentes.

A generalização, neste caso, pode ser fruto de uma elitofobia – um preconceito dirigido às camadas mais ricas da população. Embora seja raro ver um empresário de verdade nas páginas do livro (um ou outro é citado), a mensagem que se passa é a de que os ricos são pessoas desprezíveis, pusilânimes e apatetadas. Posso estar exercendo um viés errado, mas essa não é a elite que vejo no meu dia a dia. Vejo gente racional, que trabalha e constrói, preocupada mais com seu legado do que com os bilhões que estão na conta bancária.

A crítica ao modo de vida dos ricos pode se transformar em uma espécie de cancelamento social, no qual generalizações e preconceitos dificultam o diálogo e a compreensão verdadeira das complexidades desse grupo. Esse fenômeno amplia ainda mais a polarização da sociedade e impede uma análise equilibrada da elite econômica. Em um país em que o presidente da República tem como esporte favorito jogar pobres contra ricos, quem sai perdendo é a nossa economia.

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