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Celacanto provoca maremoto

Aluizio Falcão Filho
15 de janeiro de 2026

Foi uma espécie de prévia daquilo que seriam os memes na era das redes sociais. Nos anos 1970, paredes da zona sul carioca começaram a ser pichados com uma frase enigmática: “Celacanto provoca maremoto”. Esses dizeres vinham contidos em um retângulo que, embaixo, se transformava em uma flexa. Abaixo da figura, havia uma gota cerca por aspas. No Rio de Janeiro, essa pichação rivalizava em popularidade com outra: “Lerfa Mú”. Em São Paulo, vários muros brancos ostentavam dois grafites em particular: “Gonha Mó Breu” e “Cão Fila Km 26”.

Tirando a pichação referentes aos cães, que foi concebida para divulgar um canil que ficava próximo ao quilômetro 26 da Estrada do Alvarenga, em São Bernardo do Campo, as outras frases foram criadas por jovens irreverentes que queriam apenas criar uma confusão, na linha de uma frase que o apresentador Chacrinha dizia entre os anos 1960 e 1970 em seus programas de TV: “eu não vim para explicar, vim para confundir”.

Lembro de uma discussão na casa de amigos do meu pai, no Rio, sobre o que queria dizer a tal pichação sobre o celacanto. O dono da casa disse que era uma metáfora sobre o poder individual, já que um simples peixe poderia causar ondas fortes em um mar revolto. Nessa hora, eu entrei na conversa e disse que aquilo era uma frase do seriado “National Kid” (imagem).

Os adultos olharam para mim intrigados e me ignoraram, voltando a falar sobre pichadores, já discutindo o significado da expressão “lerfa mú” (diz a lenda que tem a ver com o consumo de drogas ilícitas). Mas aquela frase tinha mesmo sido dita por um vilão da série em um episódio sobre a saga dos seres abissais. Essas criaturas viviam em um submarino que tinha barbatanas. Quando as nadadeiras se mexiam, um maremoto era criado na região na qual estava submerso. E o formato do veículo era o de um… celacanto.

Muitas vezes, ficamos encafifados com situações aparentemente sem sentido. No fundo, porém, não há nenhuma razão que justifiquem esses acontecimentos e geram discussões intermináveis e inúteis. Como a da tal pichação. Para piorar, o contexto no qual esse meme surgiu (o seriado National Kid) não tinha pé nem cabeça, a começar pela locução que anunciava o super-herói japonês: “Mais forte que as armas científicas atuais; supera o impossível; domina o mundo da quarta dimensão; e luta pela paz e pela justiça do mundo… National Kid!”. Até hoje, não entendi direito o conceito da tal quarta dimensão. Mas prometo perguntar à Inteligência Artificial o seu significado.

Esta série, imaginada para ser uma grande promoção para a marca National, da indústria de eletrônicos Matsushita, fez mais sucesso no Brasil do que no Japão – e tinha lances absolutamente inusitados. Logo nos primeiros episódios, os adversários do protagonista deixam uma mensagem nas paredes de uma sala de reuniões da sede do governo japonês. Por sorte, o professor Massao Hata (a identidade secreta do herói, que nasceu no Planeta Andrômeda) está lá e traduz as palavras, que seriam do idioma falado pelos incas (!) que habitam o planeta Vênus. Detalhe: ele faz isso sem ler o que foi pintado nas paredes.

Diante de tamanha falta de propósito, só nos resta a dizer que talvez o celacanto nunca tenha provocado nenhum maremoto. Talvez a frase nunca tenha pretendido significar nada além do próprio absurdo. Mas, como tudo que se espalha sem explicação, ela virou símbolo — não de um peixe pré-histórico, nem de um vilão abissal, mas da nossa eterna vontade de decifrar o indecifrável. E, no final das contas, é isso que torna essas frases tão poderosas: não o que dizem, mas o que fazem a gente dizer sobre elas.

Publicado em 21/09/25

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