A operação deflagrada na avenida Faria Lima, na semana passada, mapeou R$ 30 bilhões estacionados em fundos administrados por instituições financeiras. A julgar pelos montantes, chegamos à conclusão de que o crime organizado brasileiro deixou de ser apenas uma força marginal e passou a operar com lógica empresarial. Diante disso, é bom perguntar: qual é o tamanho da fortuna movimentada pelo crime organizado?
Segundo estimativas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, essas organizações movimentaram cerca de R$ 350 bilhões entre 2022 e 2025. Não é exagero: o tráfico de drogas, o contrabando, o garimpo ilegal, as fraudes tributárias e os crimes digitais formam um ecossistema que se infiltra na economia formal com naturalidade. O setor de combustíveis, por exemplo, responde por perdas anuais de R$ 29 bilhões em sonegação e adulteração. E os crimes cibernéticos, antes vistos como obra de hackers solitários, hoje são parte da engrenagem das facções — movimentando R$ 186 bilhões em apenas um ano.
Facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) já entenderam que a sofisticação financeira é tão importante quanto o domínio territorial. Investigações recentes revelaram que essas organizações lavaram R$ 6 bilhões em um único ano, usando empresas de fachada. Em outra operação, a Polícia Federal desmantelou uma quadrilha que criou 330 empresas fantasmas, com prejuízo de R$ 110 milhões em fraudes bancárias. O que antes era feito com malas de dinheiro e intermediários improvisados, hoje é executado com CNPJs, contabilidade e blindagem patrimonial.
O crime organizado brasileiro não apenas se adaptou aos novos tempos — os malfeitores aprenderam a jogar com as regras do mercado e foram se infiltrando silenciosamente na sociedade e no mundo empresarial. Os meliantes estão explorando brechas regulatórias e operando com discrição. O crime organizado brasileiro hoje se parece menos com o estereótipo do bandido armado e mais com o executivo de terno que frequenta reuniões e assina contratos.
Veja o caso do mercado imobiliário: neste setor, o crime organizado encontrou terreno fértil para lavar dinheiro. Facções passaram a operar por meio de Fundos de Investimento em Participações (FIPs), misturando recursos ilícitos com capital legítimo e criando estruturas societárias tão complexas que até especialistas têm dificuldade em rastrear os verdadeiros beneficiários.
Em um dos casos na fase de investigação da Operação Carbono Oculto, um empresário que colaborava com as autoridades foi assassinado na entrada do Aeroporto de Guarulhos após revelar detalhes sobre o esquema. O que antes era feito com malas de dinheiro e intermediários improvisados, hoje se realiza com contratos, CNPJs e reuniões em salas climatizadas. O crime se adaptou — e aprendeu a falar a linguagem do mercado.
A sociedade, porém, não pode ficar de braços cruzados diante dessa entrada de criminosos em negócios aparentemente legítimos. Além disso, combater a infiltração do crime organizado na economia exige mais do que operações policiais pontuais. O Estado precisa investir em inteligência financeira, integrando órgãos como Receita Federal, Coaf, Banco Central e CVM para rastrear movimentações suspeitas e fechar brechas regulatórias. Reformar o sistema prisional, que hoje funciona como incubadora de facções, é urgente. Leis como a 12.850/2013, que trata das organizações criminosas, precisam ser aprimoradas para facilitar o confisco de bens e a colaboração premiada. O uso de tecnologia e inteligência artificial também pode ajudar a identificar padrões de lavagem de dinheiro e o uso de empresas de fachada. O combate também passa por acordos internacionais, já que boa parte do dinheiro sujo circula fora do país.
Mas o enfrentamento não é responsabilidade exclusiva do poder público. Empresas devem reforçar seus programas de compliance e due diligence, evitando parceiros suspeitos. A sociedade civil precisa pressionar por mais transparência, especialmente em setores vulneráveis como combustíveis, mineração e logística. E, no longo prazo, educação e inclusão social são ferramentas essenciais para reduzir o recrutamento de jovens pelas facções.
Todo esse dinheiro de origem ilícita que circula na economia nacional dá às máfias brasileiras um poder quase incontrolável. Para os criminosos ampliarem ainda mais os seus tentáculos é apenas uma questão de tempo. Basta encontrar os interlocutores certos para se imiscuir indelevelmente na indústria, na tecnologia e na área de serviços. Se o crime organizado aprendeu a jogar com as regras do mercado, cabe à sociedade revisar essas normas e impedir que o jogo seja vencido por quem opera nas sombras.