Reportagem da revista britânica repercute o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na trama golpista e faz duras críticas a Donald Trump

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e o julgamento da ação penal na qual ele é acusado de liderar uma tentativa de golpe de Estado são focos da capa da tradicional revista britânica The Economist desta semana, que compara as maneiras como juízes, políticos e as sociedades brasileira e estadunidense lidam com as afrontas autoritárias de seus líderes. Na capa, uma manchete que inconcebível até o passado recente: “O que o Brasil pode ensinar à América”.
Considerada a mais respeitável representante jornalística do liberalismo democrático, a publicação que chega às bancas no exterior nesta quinta-feira (28) pontua: “O Brasil oferece uma lição de democracia para uma América que está se tornando mais corrupta, protecionista e autoritária”.
Na capa física, Bolsonaro, que está em prisão domiciliar em Brasília-DF, foi retratado com o rosto pintado com as cores do Brasil e com um cocar igual ao usado por Jacob Anthony Chansley, o Viking do Capitólio, emblemático apoiador extremista de Trump no episódio da invasão do Capitólio, em 2021, que terminou com mortos:
“Mas a comparação mais marcante do Brasil é com os Estados Unidos. Os dois países parecem estar trocando de lugar. Os EUA estão se tornando mais corruptos, protecionistas e autoritários – com Donald Trump esta semana mexendo com o Federal Reserve e ameaçando cidades controladas pelos democratas. Em contraste, mesmo com o governo Trump punindo o Brasil por processar Bolsonaro, o próprio país está determinado a salvaguardar e fortalecer sua democracia”, alerta.
Intitulando Bolsonaro de polarizador e Trump dos Trópicos, a reportagem afirma que o brasileiro e seus aliados provavelmente serão considerados culpados pelo Supremo Tribunal Federal (STF): “O golpe fracassou por incompetência, e não por intenção. Isso torna o Brasil um caso de teste para a recuperação de países de uma febre populista”. O texto enumera exemplos de outros países, como os EUA, Reino Unido e Polônia.
O caminho para reformas será cheio de obstáculos, segundo a publicação. Além disso, mesmo que as elites queiram mudanças, o Brasil ainda é um país profundamente dividido, avalia: “Bolsonaro tem apoiadores fanáticos que causarão problemas, especialmente se o tribunal impor uma sentença severa. Reformar o STF e a Constituição exige que grupos abram mão do poder em prol do bem comum. É natural que se apeguem ao que têm – mesmo que seja apenas porque não confiam em seus inimigos. Todos querem crescimento, mas, para obter mais crescimento, algumas pessoas terão que abrir mão de alguns privilégios”.
A análise conclui que, diferente dos EUA, políticos brasileiros dos mais diversos espectros querem jogar conforme as regras e progredir por meio de reformas sem acovardamentos e oportunismos – em referência aos republicanos e até democratas: “Estas são as características da maturidade política. Ao menos temporariamente, o papel de adulto democrático do hemisfério ocidental mudou-se para o sul [do continente americano].”
