Conhecida pelo guaraná mais querido dos gaúchos, a companhia centenária chega ao primeiro bilhão com portfólio que vai de água a cerveja – e investindo em expansão
O guaraná é uma bebida tão nacional que cada estado tem o seu. Em Santa Catarina, é o Pureza. No, Paraná, o Cini. No Amazonas, na falta de um, há dois: Baré e Tuchuá, emblemáticos a ponto de acabarem nas mãos de gigantes como Ambev e Coca-Cola. No Rio Grande do Sul, estado de bairrismo arraigado, não poderia ser diferente: peça um guaraná num restaurante à beira da estrada ou num jantar de família e é quase certo que venha à mesa uma garrafa — de preferência de vidro — de Fruki .
A marca de Lajeado, cidade a 120 quilômetros de Porto Alegre, é um símbolo da predileção gaúcha pelo produto feito perto de casa. Mas, diferentemente de boa parte dos fabricantes regionais de refrigerantes, reforçados num único produto e, muitas vezes, na nostalgia dos consumidores, a Fruki construiu um negócio bilionário e familiar com um portfólio digno de multinacional: refrigerantes, água mineral, sucos, refrescos, energéticos e até cerveja.
Nos últimos cinco anos, sob o comando de Aline Eggers, membro da quarta geração à frente do negócio, uma receita praticamente triaplicada, de R$ 395 milhões para o marco histórico de R$ 1 bilhã. A inauguração de uma segunda planta fabril, no fim de 2023, em Paverama, a poucos minutos de Lajeado, adicionou 200 milhões de litros à capacidade produtiva. Não bastou. Poucos meses depois, a companhia antecipou um investimento de R$ 100 milhões para ampliar a fábrica.
Agora, em primeira mão à Exame, anuncia um novo porte, de mais R$ 100 milhões, para uma terceira linha de produção na planta até o fim do ano. “A força de uma marca confiável, o relacionamento de décadas com 25.000 clientes do varejo e de food service, e uma gestão guiada por dados e resultados formam a base para o nosso crescimento”, diz Aline.
A bem da verdade, e como gostaria de lembrar Aline, a base do crescimento também está ligada aos ensinamentos do pai, Nelson Eggers, hoje na presidência do conselho da companhia. Foi sob o comando dele que a Fruki deixou de ser um pequeno negócio para se voltar de refrigerante no Rio Grande do Sul. Foi dele também a fórmula da bebida mais famosa do portfólio, criada em 1971. Na época, a empresa, já com 47 anos, mudou de Arroio do Meio, cidade de 22.000 habitantes a menos de 15 minutos da sede atual, para Lajeado, onde está até hoje.
Ali, às margens do Rio Taquari, um dos mais importantes do estado, a Fruki deu seus primeiros passos em 1924, ainda como Bebidas Kirst & Cia, focada em cerveja e com produção de 200 garrafas por dia. Assim foi por quase meio século, até a mudança e o lançamento da linha de refrigerantes de guaraná, laranja, limão e uva. “Na época, o sabor laranja até tinha mais força que o guaraná”, diz Júlio Eggers, irmão de Aline e atual chefe de marketing da companhia.
De lá para cá, a Fruki evoluiu em ciclos de expansão: nos anos 1990, trocou parte das garrafas de vidro pelo PET; nos anos 2000, lançou a Água da Pedra, outras tendências de vendas; e, a partir de 2010, voltou a produzir cerveja e entrou em novas categorias, como de energias e de sucos naturais.
A diversificação do portfólio ajuda a explicar como a Fruki cresceu 34% no último ano — e como o projeto repetir esse feito em 2025, numa toada capaz de despertar inveja em qualquer concorrente. Em volume, a empresa já envasa mais litros de Água da Pedra do que de refrigerante.
A marca ocupa há 11 anos o posto de mais lembrado pelos consumidores do Rio Grande do Sul, segundo o levantamento Top of Mind , realizado anualmente pelo Grupo Amanhã, à frente da Crystal, da Coca-Cola, líder nacional de vendas. Para ir além da lógica da commodity e agregar valor a um bem tão essencial quanto a água, a Fruki lançou a Água da Pedra na versão lata e na linha saborizada, com seis aromas naturais, do limão à bergamota.
“É interessante ver como a água saborizada atrai consumidores que já não queriam tomar refrigerante e passaram a optar por uma alternativa mais leve”, diz Aline. A tendência é percebida também por Alexandre Horta, presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e de Bebidas Não Alcoólicas, da Abir. “Nos últimos anos, o refrigerante passou a ser visto como uma bebida de entretenimento, e a água mineral ganhou espaço como substituta no dia a dia”, afirma.
Hoje, refrigerantes e água mineral estão praticamente empatados no volume de produção nacionalmente, na casa dos 20 bilhões de litros anuais cada um, segundo dados do governo federal.
Ter um portfólio amplo ajuda em nossa estratégia central de crescimento da Fruki: a de estreitar laços com clientes. “Bares, restaurantes e varejo buscam cada vez mais fornecedores que resolvam, sozinhos, várias dores”, diz Aline.
“Se a gente oferece bebidas diversas, entrega na data, com qualidade e preço combinado, a relação se fortalece e as vendas crescem.” A estrutura logística reforça essa vantagem. São dez centros de distribuição, com mais um tentado a ser aberto em Passo Fundo, no norte gaúcho. Essa capilaridade mostrou seu valor em maio de 2024, nas enchentes que atingiram 95% do Rio Grande do Sul.
Com apenas cinco meses de operação, a nova planta de Paverama foi decisiva para manter o abastecimento: o transporte do Rio Taquari interditou a ponte principal da região, que liga Lajeado a Estrela e conecta o leste ao oeste do estado. Na prática, o estado ficou “cortado” em dois.
A Fruki conseguiu atender as regiões leste com a fábrica de Paverama e, a oeste, com a de Lajeado. “A planta de Paverama foi a nossa salvação”, diz Júlio Eggers.
O episódio ganhou ainda mais relevância na Fruki, porque a principal fábrica da Coca-Cola Femsa no estado, em Porto Alegre, foi totalmente alagada, prejudicando a rede de distribuição da maior companhia de bebidas do mundo. Enquanto o concorrente só retomaria a operação plena cerca de um ano depois, a Fruki aprovou uma brecha para ocupar parte desse espaço no mercado.
Para além de ter garantido o abastecimento durante a enchente, a nova fábrica de Paverama é o maior símbolo de como a Fruki está com gás total para crescer. O projeto estava no papel desde 2016, mas ganhou vantagem na pandemia, quando a demanda em alta e as restrições operacionais no verão lançaram o alerta.
“Ficamos duas versões trabalhando no limite, e conseguimos ficar prontos para atender o verão de 2024, aumentando a capacidade produtiva em 50%”, diz Júlio Nascimento, diretor de operações da empresa.
A fábrica também recebeu certificados de segurança alimentar para facilitar a produção para terceiros, outro mercado em expansão no Brasil. Mas a demanda surpreendeu até a própria direção.
“Quando inauguramos uma fábrica, com R$ 200 milhões, imaginávamos voltar a discutir novos esportes em quatro anos. Mas as vendas dispararam”, diz Aline Eggers. A segunda linha, concluída em julho, dobrou a capacidade da unidade e igualou sua produção à planta de Lajeado.
Agora, uma terceira fase, com mais R$ 100 milhões, deve entrar em operação até dezembro, consolidando Paverama como um dos pilares do próximo ciclo de crescimento da companhia.
Os investimentos, aliás, estão no radar de toda a indústria de bebidas. Só o sistema Coca-Cola, principal player do setor, anunciou, neste ano, um plano de R$ 7 bilhões em investimentos no Brasil, com a abertura de 14 novas linhas de produção.
A Abir, associação do setor, estima que, até 2028, o montante investido no país chegará a R$ 40 bilhões, não apenas para expandir fábricas, mas também para lançar novos produtos. Parte desse movimento é resposta a um desafio global da indústria de bebidas: o interesse do consumidor por bebidas mais saudáveis.
Daí a estratégia de fortalecer produtos como água saborizada e, claro, os “sem açúcar”. O mercado mundial de bebidas sem açúcar faturou US$ 4,6 bilhões pelo mundo, com crescimento anual de 10,6%. Até o fim da década, deve saltar para US$ 24,5 bilhões, segundo estudo da consultoria Stellarix.
“O consumidor está escolhendo, fazendo opção por algo sem açúcar, e a indústria se adapta”, diz Horta, da Abir. “Além disso, nos comprometemos com a Anvisa em reduzir as taxas de açúcar nas bebidas, e estamos cumprindo.” Impacto sentido, em partes, por Fruki. “O mercado sem açúcar é representativo. Mas também há quem prefere açúcar, especialmente em atividades com programação rápida de energia”, afirma Aline. “Hoje, há uma procura maior por produtos com menos açúcar, mas o refrigerante tradicional continua crescendo de forma expressiva.”
Entre novos produtos e a mudança de perfil do consumidor, a Fruki também lida com um desafio natural para qualquer empresa familiar: a sucessão. A própria Aline não cresceu com a ideia de assumir uma empresa da família. Seu pai, Nelson, começou a pensar no tema nos anos 1980, mas nunca a pressionou para seguir no negócio. “Eu vinha passeando nos fins de semana, mas nunca ouvi dele um convite para trabalhar aqui”, diz.
Formou-se, mudou-se para Porto Alegre e construiu uma carreira sólida no grupo Petróleo Ipiranga, próxima a conselhos e acionistas. Dez anos depois, em 2002, recebeu um jantar-proposta do pai: trocar uma empresa de R$ 20 bilhões de receita por um negócio de R$ 40 milhões. “Foi uma grande dúvida, mas meu diretor na Ipiranga disse que eu não podia negar, a família estava me chamando.”
Quando cheguei, encontrei apenas uma fábrica de Lajeado, sem centros de distribuição, um portfólio restrito e 200 funcionários. Bem diferente do cenário de hoje e de uma empresa com Nelson na presidência do conselho e três conselheiros independentes. O plano de sucessão também é claro: Aline segue no comando até completar dez anos de mandato, quando a carga passa ao irmão Júlio por mais uma década.
Certamente, a agenda de desenvolvimento dos irmãos não há radar de avanço para novos mercados. Hoje, 30% da receita da Fruki já vem de Santa Catarina, território que a família Eggers atende desde 2017. Mais longe, porém, é um desafio caro: entrar em regiões como o Sudeste exigiria construir fábricas locais, já que transportar garrafas por longas distâncias partindo do Rio Grande do Sul elevaria os custos e tiraria a competitividade dos produtos. “Somos cautelosos”, diz Aline. “Estamos otimistas com o que estamos construindo, mas tudo vai acontecer no momento certo.” Até lá, quem quiser provar o guaraná mais popular dos gaúchos precisa aterrissar nos pampas e fazer o pedido certo: “Um guaraná, por favor”. Quase sempre, ele virá com o rótulo verde da Fruki.
O mercado bilionário das águas
Um leilão de R$ 5 milhões, em novembro passado, não teve joias, carros raros ou obras de arte como protagonistas. O destaque foi uma garrafa de água. Batizada de Victoria Amazônica, uma peça criada pela brasileira Ô Amazon Air Water e adornada com 280 diamantes, prata e ouro 18 quilates. Mas o valor não estava apenas no frasco.
O líquido, extraído dos chamados “rios voadores” — massas de ar transportados de vapor que cruzam a Floresta Amazônica e ajudam a formar chuvas pelo país —, foi anunciado como “a água mais pura do planeta”. Está aí a faceta extrema de um mercado que não para de crescer: o de água para consumo.
No Brasil, a estrela desse segmento é a água mineral, com ou sem gás. Desde a pandemia, o consumo avançou em ritmo de dois dígitos.
Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Águas Minerais (Abinam), o volume comercializado em 2024 chegou a 36 bilhões de litros, alta de 20% em relação ao ano anterior. Desse total, 30% já são de água com gás.
“Há estados onde o consumo de água com gás supera o de sem gás. É o consumidor que busca mais saudabilidade e substituições ao refrigerante”, afirma o presidente da Abinam, Carlos Alberto Lancia.
A tendência é global: de acordo com a consultoria Grand View Research, o mercado mundial de água engarrafado deve saltar de 348 bilhões para 510 bilhões de dólares até o fim da década.
O grande desafio é criar valor para além da commodity. No caso da Fruki, a aposta é saborizar a água com aromas naturais. No Brasil, empresas como a Água na Caixa exploram o apelo sustentável, vendendo o produto em embalagens de papel.
Lá fora, um dos cases mais comentados é o do Liquid Death, que transformou a água em um item “rock’n’roll” com latas parecidas com as de cerveja artesanal, caveiras estampadas e o provocador slogan Murder Your Thirst (“mate sua sede”). Além da estética ousada, a marca abraça a causa ambiental, embalando tudo em alumínio reciclável e levantando a bandeira Death to Plastic (“ morte ao plástico ”).
Funciona tão bem que, hoje, ela vende milhões de litros por ano, e a receita passa dos 260 milhões de dólares. Prova de que, no mercado de água, o simples ato de matar a sede dá muito dinheiro.
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Por Daniel Giussani
Publicado originalmente em: encurtador.com.br/5ICv6
