O assunto da semana, com toda a certeza, foi o vídeo publicado pelo influenciador Felca (Felipe Bressanin Pereira) sobre adultização de crianças e adolescentes nas redes sociais. O post, por enquanto, teve 40 milhões de visualizações. Com audiência enorme, o conteúdo produzido por ele conseguiu um espaço enorme na imprensa e foi ainda mais comentado do que visto.
A gravação tem quase uma hora de duração e traz acusações sérias a quem erotiza a figura de menores de idade e aos pedófilos que entram na rede para acompanhar crianças sexualizadas por adultos (e, em alguns casos, por pais e mães).
Mas o principal petardo é direcionado às redes que postam este tipo de conteúdo. Com grande didatismo, o influenciador mostra como o algoritmo do Instagram, por exemplo, trabalha para multiplicar a audiência desses vídeos entre os adeptos da pedofilia.
Para isso, Felca usa seu celular para abrir uma conta nova no Instagram, cuja tela pode ser vista no vídeo. A partir daí, ele procura por usuários que possam oferecer esse tipo de conteúdo e também por palavras que são usadas no meio destes abusadores infantis. Conforme isso ocorre, a rede vai sugerindo novos usuários e posts – todos dentro do universo da pedofilia.
O influenciador ainda mostra que as contas de adolescentes erotizadas têm seus posts lotados de comentários de pedófilos, que na verdade são links com mais gravações e fotos do gênero. Como observa Felca, isso não ocorre na “deep web” – e sim no Instagram, à luz do dia.
O influenciador pergunta: por que o algoritmo não barra esse tipo de coisa ou avisa pelo menos que o conteúdo que será mostrado tem pornografia infantil (ou quase isso)? O autor não fala em censura e dá destaque ao algoritmo da rede, que é criado a partir da programação de um ser humano.
Em um determinado momento, mostrando um reality show erótico feito com adolescentes, ele diz o seguinte: “É um clima adulto que contrasta com o fato de eles todos serem crianças… dá um desconforto ruim. […] Se o BBB [Big Brother Brasil] derrete o cérebro da pessoa que participa e são adultos – até o Fiuk ficou carcomido lá –, imagine o que faria um reality show na cabeça de uma criança?”.
Em outro trecho, ele conversa com a psicóloga e pedagoga Ana Claudia Favano, que é também diretora da Escola Internacional de Alphaville. Felca pergunta a ela se a sociedade não está criando pais permissivos. Ela responde que largar um filho no quarto com um celular é o mesmo que deixá-lo sozinho no meio da Praça da Sé: lá tem de tudo.
Nos anos 1970, dizia-se que a televisão era uma espécie de babá eletrônica, pois as crianças ficavam inertes diante do aparelho, assistindo a programação. Isso ganhou um novo nível nos últimos anos.
Por negligência, estresse ou cansaço, muitos pais acabaram terceirizando boa parte da educação às escolas – e deixando o celular tomar um espaço desproporcional na vida de seus filhos. Isso pode criar adultos disfuncionais no futuro. E muitas crianças de hoje vão passar para a próxima fase com diversos traumas gerados pela internet.
A repercussão do vídeo gerou 32 novos projetos que combatem a adultização de crianças nas redes sociais e chamou a atenção para um texto que tramita no Congresso desde outubro de 2023. Surgiu no Senado, com autoria de Alessandro de Vieira, e há dez meses aterrissou na Câmara, sendo relatado por Jadyel Alencar. Com o vídeo de Felca, ele deve ser finalmente votado.
O projeto estabelece que contas de adolescentes com até 16 anos devem estar vinculadas às dos responsáveis; exige verificação de idade nas lojas de aplicativos e sistemas operacionais e determina a remoção imediata de conteúdos ofensivos envolvendo crianças, sem necessidade de ordem judicial. Também proíbe publicidade direcionada a crianças, regula “loot boxes” (caixas que permitem a interação de usuários) em jogos online com regras claras e responsabiliza as plataformas por omissão diante da denúncia de conteúdos nocivos. Em tempo: esse projeto não pode ser um veículo para incluir “jabutis” que cerceiem a liberdade de expressão de adultos.
Geralmente, as redes estão infestadas de vídeos imbecis, com roteiros idiotizados. A iniciativa de Felca, um jovem de 27 anos, é muito bem-vinda e deve ser elogiada por todos nós. Vamos apenas esperar que essa discussão — como outras que existem no Brasil — não seja polarizada. Não existe ideologia no combate à pedofilia. Apenas bom senso.
Uma resposta
Provavelmente o Felca devia ter uns 12 anos quando eu, tendo de voltar sozinha do Litoral Norte de São Paulo, optei por pegar um lugar em uma van, que fazia a rota regularmente. No veículo, só mães e seus filhos, na faixa dos 6 a 10 anos! Pensei: “Tranquilo”! Meti um fone de ouvido para me proteger da música ambiente que viria, mas foi pior. O auxiliar da van, que tinha um DVD a bordo, meteu um show de funk ali e começou o show de horrores. Na performance do “mano” cantor, uma popozuda rebolava em primeiro plano para a tela, muitas vezes simulando se&o oral , conforme a “letra” se seguia … Eu nunca tinha visto nada igual, mas daí fui observar as mães … O choque foi maior ao ver que nenhuma daquelas mulheres se incomodava com a cena ! Era “normal”! Calei-me porque não havia nenhuma criança sob a minha responsabilidade, mas aquilo me pontuou para o que estava por vir !
Normatizar a aberração é como um decreto !
Bem mais cedo, na época do “É o tchan”, no teatro da TV Gazeta, todo sábado , mães levavam suas mini “Loiras do Tchan” para dançar no programa do Raul Gil, e eu, que saia do plantão da CNT, queria VOMITAR, de nojo daqueles adultos deformados! Sinto alento ante o brado desse jovem !