Negociadores também citam falta de hospedagem e problemas logísticos; governo brasileiro afirma que conferência será mantida na capital paraense
A 100 dias do início da COP30, a conferência climática da ONU marcada para novembro, o governo brasileiro enfrenta uma crescente pressão internacional para mudar a sede do evento, previsto para ocorrer em Belém, no Pará. O motivo é a explosão nos preços das hospedagens, que gerou protestos de representantes de 25 países e levou à convocação de uma reunião emergencial da ONU.
Os países afirmam que os valores atuais dos hotéis inviabilizam a presença de muitas delegações. Em alguns casos, o custo da diária está até 15 vezes mais alto que o praticado normalmente. “Na maioria das cidades onde as COPs aconteceram, os preços dobraram ou triplicaram. Em Belém, passaram de 10 vezes o valor normal”, afirmou André Corrêa do Lago (imagem), presidente da COP30, durante encontro com correspondentes estrangeiros.
A carta assinada por representantes de países desenvolvidos e em desenvolvimento, como Áustria, Bélgica, Canadá, Noruega, Suécia, Suíça e o Grupo de Negociadores Africanos, alerta que, se os custos não forem reduzidos, muitos delegados não conseguirão participar da conferência. Alguns países pedem inclusive que a cúpula de chefes de Estado, que ocorre antes da abertura oficial da COP, seja transferida para outra cidade.
Na reunião emergencial do bureau climático da ONU, realizada em 29 de julho, diplomatas como Richard Muyungi, presidente do Grupo Africano de Negociadores, defenderam a manutenção das delegações completas. Ele afirmou que os países africanos não estão dispostos a reduzir seus representantes e pediu respostas mais efetivas do governo brasileiro.
O governo lançou uma plataforma de hospedagem com preços subsidiados, oferecendo até 2.500 quartos com tarifas entre 200 e 600 dólares, dependendo do porte da delegação. As medidas, no entanto, ainda não eliminaram a insegurança entre os países, principalmente os mais pobres.
Entre as soluções em análise estão o uso de imóveis do programa Minha Casa, Minha Vida, escolas públicas, parcerias com o Airbnb e até navios de cruzeiro para acomodação temporária. O governo também apura denúncias de práticas abusivas do setor hoteleiro, mas lembra que a legislação brasileira não permite impor limites aos preços praticados.
Mesmo diante da pressão crescente, a secretaria extraordinária da COP30 afirmou não haver possibilidade de alterar o local da conferência. A ONU ainda não se manifestou oficialmente sobre o conteúdo da carta.
Diplomatas ouvidos pela imprensa destacaram que nunca houve tanta incerteza logística a tão pouco tempo do início de uma COP. Segundo eles, a participação de delegações completas e da sociedade civil é essencial para garantir avanços concretos nas negociações climáticas.
