Depois de fazer uma transição de carreira, Ticiana fundou a Somos Um e agora engaja líderes na transformação social do Nordeste
Herdeira de uma das principais construtoras do Ceará, Ticiana Rolim Queiroz viveu durante décadas o que muitos considerariam um sonho: segurança financeira garantida e um trabalho na empresa de construção civil da família. Ela tomou uma decisão radical: abdicou dos privilégios de trabalho consolidado para se dedicar integralmente ao empreendedorismo social de forma voluntária.
Em entrevista exclusiva à EXAME, Ticiana é direta sobre sua origem privilegiada. Filha de uma família empresarial centenária, ela cresceu em um “contexto de privilégio”, como ela mesma define. Mas quando quis participar dos negócios familiares, ouviu de um parente: “Só os homens da família entram para a empresa, mas não se preocupe, você vai ter dinheiro pelo resto da vida.”
“Eu disse que não queria mais mesada. Queria muito provar que era capaz”, relembra. Essa rejeição inicial a motivou a lutar por sua própria trajetória na C. Rolim Engenharia, empresa da família especializada em empreendimentos em Fortaleza. Durante 21 anos, trabalhou para provar seu valor em um ambiente predominantemente masculino.
O ponto de virada veio em 2013, quando Ticiana começou a perceber que estava adoecendo física e emocionalmente. Em 2017, nasceu a Somos Um, uma organização sem fins lucrativos focada em empreendedorismo social. A inspiração definitiva veio da leitura do livro “Um Mundo sem Pobreza”, do Nobel da Paz Muhammad Yunus. Uma frase do autor a marcou profundamente sobre sonhar com o dia em que as novas gerações terão que ir a museus para saber como era viver na pobreza. A Somos Um, segundo Ticiana, “nasce para apoiar empreendedoras sociais a prosperarem”.
Impacto social e nova economia
Mas foi alguns anos depois que Ticiana percebeu uma contradição incômoda: “Percebi que o meu dinheiro estava fazendo o oposto do que eu dizia e trabalhava por. Decidi trabalhar de forma voluntária e não acumular mais dinheiro do que já tenho.”
A decisão foi radical: como investidora, conta que trocou juros por impacto. “Ganho menos, mas sei que o dinheiro impacta muitas vidas. Se pensarmos só no retorno, não teremos planeta para viver.” Em 2022, deixou definitivamente a empresa familiar para se dedicar à nova economia.
Sua questão central era: “Como unir cabeça de negócio com coração social?” A resposta veio no modelo de negócios de impacto. A Somos Um desenvolveu o Zunne, programa feito em parceria com a Yunus Negócios Sociais do Brasil e a Tre – Investindo com causa. O objetivo é democratizar o acesso ao crédito por empreendedoras de negócios de impacto socioambiental positivo, no Norte e no Nordeste, priorizando mulheres. Ao todo, 18 negócios já foram apoiados, oferecendo capital, apoio em formações e mentorias para negócios com faturamento acima de R$ 200 mil por ano.
O Conexão ODS surgiu como uma evolução natural do trabalho da Somos Um. Realizado em parceria com o Pacto Global – Rede Brasil, o evento tem como propósito engajar o setor empresarial na implementação da Agenda 2030 e acelerar a transição para um futuro mais justo e sustentável.
“Não queria um evento de sentar e assistir palestra, mas uma experiência. Quando toca o coração, a mudança é mais rápida do que mudar pela mente”, explica Ticiana. O formato inovador inclui feira de artesanato local com produtos de comunidades negras e indígenas, visitas a comunidades, shows e desafios de inovação.
Conexão ODS: o ESG sai do Sul-Sudeste
A primeira edição, realizada em Fortaleza, reuniu 800 líderes em três dias. O sucesso foi tanto que levou à expansão para outros estados nordestinos. A segunda edição acontecerá em Natal, de 7 a 9 de agosto, em parceria com o Sebrae RN como correalizador, esperando receber 600 líderes e mais de 50 painelistas.
Para Ticiana, a regionalização do evento é estratégica. “Cada Brasil é um Brasil. Em cada região tem especificidades, mas enquanto nordestinos, precisamos nos unir. Ainda estávamos fazendo ações estado por estado, apesar de termos similaridades fortes”, observa.
“Os desafios de seca e pobreza existem em todos os estados do Nordeste. O que uso no Ceará pode não ser aplicado no Rio Grande do Norte, mas é mais parecido do que com São Paulo. A gente troca muito pouco – o Nordeste precisa se unir mais.”
Sobre o impacto do Conexão ODS, Ticiana adota uma perspectiva de longo prazo: “Quando perguntam se queremos medir impacto, conseguimos medir alguns programas da Somos Um, mas no Conexão não consigo. Jogamos sementes – algumas não florescem, outras crescem mais rápido, outras mais devagar. O mais importante é que estamos plantando sementes”, explica.
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Por Letícia Ozório
