Em um momento de preços e juros em alta, agência estatal admite que mais de um terço dos resultados são baseados em estimativas. Desconfiança pode chegar aos investidores
Os dados de inflação nos Estados Unidos se tornam imprecisos graças ao desmanche de parte da estrutura de coleta de preços do Bureau of Labor Statistics (BLS), agência que mensalmente divulga o United States Consumer Price Index (CPI), que agrega uma série de índices. Para junho, os preços ao consumidor subiram 0,3%, elevando a taxa para 2,7% nos últimos 12 meses. Foi a mais alta desde fevereiro, divulgou o BLS na quarta-feira (15). Só o abastecimento de gás aumentou 14,2% no período.
Porém, há incertezas. O alerta mais recente veio de David Ortega, economista da Michigan State University que estuda as políticas de preços dos alimentos no país. Em um post em sua conta no LinkedIn ele destacou que mais de um terço dos resultados eram baseados em estimativas, quando deveriam trazer médias a partir de preços reais. Em vez disso, foram coletados dados de outros itens e locais para compor uma espécie de conta de chegada. A manipulação tem tudo para dar informações largamente errôneas se mantida por um período longo, o que implicaria em desajustes econômicos.
O desmantelamento do BLS começou no início do atual mandato de Donald Trump e é pouco percebido pela opinião pública. De acordo com Ortega, o BLS não consegue coletar preços reais por escassez de pessoal e cortes no orçamento. “Cidades inteiras como Lincoln [Nebraska] e Buffalo [Nova York] perderam recentemente a coleta de dados do CPI. A capacidade de nossa infraestrutura estatística de monitorar a inflação está diminuindo”, afirmou.
O problema afeta diretamente as famílias americanas, já que o CPI auxilia na tomada de decisões econômicas de amplo espectro, como a taxa de juros determinada pelo Federal Reserve (Fed), o banco central dos EUA. É como se os dados do IPCA brasileiro, coletado e medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), fossem alterados, distorcendo os resultados da inflação real. Algo que só ocorreu por aqui na década de 1970, durante a Ditadura.
O índice estadunidense falharia em um momento delicado. Os dados mais recentes apontam para elevação em 3% na alimentação em casa e de 3,8% para quem faz refeições na rua no último ano. O preço do ovo subiu 27,3%, por causa dos abates sanitários decorrentes de casos de gripe aviária, enquanto carnes, aves e peixes aumentaram 5,6%.
O problema não foi descoberto agora, mas se agrava também pela falta de providências. No início de junho, o BLS admitiu a economistas que o congelamento de contratações estava forçando a redução no número de empresas terceirizadas para verificações locais. O caso foi reportado pelo The Wall Street Journal. No relatório de inflação de abril, divulgado em maio, foi admitido que os estatísticos tiveram que usar “um método menos preciso para estimar as variações de preços de forma mais abrangente do que no passado”.
Fundador e presidente da Inflation Insights, agência especializada em fornecer análises aos investidores, Omair Sharif já argumentou que atual abordagem carece da precisão das comparações diretas de preços. Ele já citou que a falta de metodologia tem potencial para suavizar aumentos rápidos de preços — o que deve ocorrer por causa das políticas tarifárias de Trump. Sharif afirma que o melhor exemplo viria dos dados de serviços de telefonia móvel, repassados por fornecedores secundários em vez de pesquisas diretas.
Para piorar o que está ruim, o BLS admite o problema, mas não divulga com que frequência e quais dados estão baseados em métricas falhas. Para o presidente da Inflation Insights, essa opacidade deixa os investidores em dúvida se a inflação reportada seria um reflexo real.
“Quando os dados de inflação são cada vez mais construídos com base em suposições, não em observações, ameaçam a credibilidade do número que impulsiona toda a nossa conversa econômica e molda decisões importantes e influentes”, reclama Ortega, que alerta para uma questão que não é só dos economistas, já que as contas e gastos afetam todos os lares.
Tá valendo?

