Impulsionadas pela popularidade de medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, marcas de roupas recuam em ofertas para tamanhos grandes; modelos e especialistas denunciam retrocesso na inclusão e apontam preconceito estrutural no setor
A indústria da moda está reduzindo suas opções de roupas plus size, e uma das justificativas para isso seria a crescente popularização de medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, usados para emagrecimento. É o que revela uma reportagem publicada pela Business Insider, que ouviu modelos, especialistas e dados de mercado para mostrar como o discurso de diversidade corporal perdeu força nos últimos anos.
Em 2019, a modelo e ativista Tess Holliday viu o cenário mudar de forma inédita. Ela desfilou na New York Fashion Week, foi destaque em revistas como Cosmopolitan UK e Self, e assistiu à ascensão de artistas como Lizzo e Rihanna promovendo a representatividade. Para Holliday, aquele foi um breve momento de celebração da diversidade real.
No entanto, com a pandemia e a explosão das chamadas de vídeo, veio também uma nova onda de autoimagem crítica e obsessão com o corpo. Grandes marcas que antes haviam investido em tamanhos grandes começaram a reduzir suas coleções. Em paralelo, emagrecedores injetáveis ganharam destaque como soluções rápidas. E parte do setor fashion passou a considerar que o público plus size deixaria de existir.
Segundo a Business Insider, marcas como Loft, Old Navy, Aritzia, ASOS e Reformation já reduziram significativamente suas linhas plus size. A Loft, por exemplo, encerrou a categoria em 2021, três anos após lançá-la. A Old Navy anunciou em 2022 que diminuiria a presença de tamanhos grandes nas lojas físicas, mantendo o foco online. A Aritzia cortou a participação de vestidos 2XL entre os lançamentos em 2024, enquanto aumentou a oferta de peças menores.
Relatórios de consultorias como Edited e Impact Analytics, citados pela reportagem, apontam que a demanda por tamanhos pequenos cresceu em regiões com alta adesão ao uso de GLP-1, como Manhattan. Já as vendas de tamanhos maiores sofreram queda.
Ainda que não exista comprovação direta de que os medicamentos estejam mudando o perfil do consumidor em larga escala, a reportagem mostra que o setor encontrou neles uma desculpa conveniente para se afastar da inclusão de corpos maiores. Danielle Malconian, CEO da marca plus size Vikki Vi, afirma que produzir tamanhos grandes é mais trabalhoso e caro: exige mais tecido, ajustes cuidadosos de modelagem e múltiplos modelos de prova para garantir o caimento ideal.
Mas o problema vai além da logística. A reportagem destaca que a moda privilegia historicamente a magreza, e que a atual retração é também reflexo de preconceito e gordofobia. A comediante Lauren Hope Krass, por exemplo, critica o argumento de que marcas estariam falindo por falta de pessoas gordas. “Estamos aqui. Marcas plus size estão desaparecendo não por falta de público, mas por preconceito”, diz.
Além disso, o marketing dessas marcas costuma esconder as roupas maiores em cantos discretos das lojas, com campanhas protagonizadas por modelos magras, mesmo quando vendem tamanhos grandes. Holliday aponta o problema: “As marcas mostram modelos tamanho 14 como se fossem plus size. Mas esse é um tamanho médio. Mulheres realmente gordas não se veem representadas e nem sabem que aquelas roupas foram feitas para elas.”
Mesmo com a pressão por magreza, marcas como Universal Standard, Eloquii e ASOS ainda mantêm linhas plus size com qualidade e compromisso. O mercado de brechós e revenda também ganha espaço entre consumidoras maiores, diante da escassez de novas peças em tamanhos grandes.
Embora os medicamentos como Ozempic tenham provocado mudanças reais, eles não tornam os corpos gordos invisíveis nem eliminam a demanda por roupas maiores. Além de caros e com efeitos colaterais, esses remédios são inacessíveis para a maioria e têm baixa adesão a longo prazo. Estudos citados na reportagem apontam que mais da metade das pessoas desiste do uso em menos de um ano.
“Se todo mundo pudesse ser magro agora, por que ainda existem pessoas gordas?”, provoca Tess Holliday. Para ela, o setor de moda se recusa a enxergar uma realidade econômica e social. “Queremos consumir, queremos estilo. Mas continuam nos empurrando para os fundos das lojas. E não é culpa do Ozempic.”
