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O charme eterno das panteras

Aluizio Falcão Filho
6 de julho de 2025

Desde o final de semana passado, vi inúmeros episódios de “As Pànteras”, o seriado criado em 1976 no qual estrelavam Farrrah Fawcett (Jill Munroe), Kate Jackson (Sabrina Duncan) e Jaclyn Smith (Kelly Garrett). Lembro que o programa passava às sextas-feiras à noite, depois das 22 horas. Minha mãe, na época, não queria que minha irmã, com oito anos de idade, assistisse os episódios. “Muito pesado”, ela dizia.

Comecei a assistir a série com essa lembrança na cabeça. E rapidamente entendi a razão. Duas das personagens, Jill e Kelly, se insinuam com frequência para os vilões quando estão disfarçadas em suas missões. Obviamente, essas falas, na atualidade, demonstram uma ingenuidade atroz se as compararmos com as letras de qualquer funk que toca em festas infantis nos dias de hoje.

Mesmo assim, as estrelas do seriado usam frequentemente seus atributos físicos para obter informações, algo que poderia render algum tipo de cancelamento nas redes sociais deste mundo digital em que vivemos. Os episódios mostram uma rotina que se repete, com a agência Charles Towsend criando personagens ficticias para suas detetives enganarem os vilões. Nesses esquemas, Jill era quase sempre uma esportista ou dançarina, Kelly uma modelo ou fotógrafa e Sabrina uma executiva ou jornalista.

Ao maratonar a série, percebi algumas coisas que me fugiram à memória ou que eu não percebi durante a transmissão original. São elas:

+ Jill dirigia um Mustang II Cobra branco, Kelly outro Mustang II, só que do modelo Ghia e da cor bege, enquanto Sabrina era dona de um Ford Pinto laranja.

+ O sobrenome “Duncan”, de Sabrina, era na verdade de seu ex-marido; o de solteira era “Blaylock”. A personagem de Kate Jackson é chamada bastante pelo apelido “Bree”, algo que a dublagem brasileira preferiu ignorar.

+ Kelly cresceu em um orfanato e tinha traumas de infância, algo que é utilizado em um capítulo no qual é hipnotizada.

+ Alguns artistas que seriam famosos mais tarde fizeram participações na série: Kim Basinger, Tom Selleck (Magnum), Timothy Dalton (007 entre 1986 e 1988),  Jamie Lee Curtis, Sam Elliott e Danny Bonaduce (o Danny de “Família Dó-Ré-Mi”).

Farrah Fawcett participou apenas do primeiro ano do seriado e, quando rompeu o contrato, muitos achavam que ela seria uma estrela de primeira grandeza no cinema, por conta de sua beleza estonteante. Ocorre que Farrah ficou muito tempo brigando com os produtores de “As Panteras” e perdeu o momento certo para se lançar em Hollywood.

Para piorar, escolheu muito mal as produções que iria acabar estrelando. Após sair da série, ela estrelou filmes como “Somebody Killed Her Husband” (1978), Sunburn (1979) e Missão Saturno 3 (1980). Todos foram fracassos retumbantes e este último foi o único a ser lançado no Brasil. Em “Saturno” produtores apelaram, colocando uma cena de topless de Farrah, mas nem assim a película fez sucesso. Um crítico de cinema, comentando a trajetória da atriz, ironizou: “Somebody Killed Her Husband matou sua carreira, Sunburn a queimou e Missão Saturno 3 a lançou no espaço”.

Quando Farrah Fawcett deixou “As Panteras”, os produtores colocaram Cheryl Ladd em seu lugar, como a irmã mais nova de Jill Munroe, Kris. Kate Jackson sairia na quarta temporada, substituída por Shelley Hack, que também iria embora um ano depois (Tanya Roberts, que estrelaria o filme de 007 “A View to a kill”, tomaria seu lugar). No final, Jaclyn Smith foi a única a participar de todo o seriado. Curiosamente, quando Kate Jackson assinou o contrato ela faria o papel de Kelly. Ao ler mais atentamente os scripts, achou que ficaria melhor como Sabrina e pediu a troca ao produtor Aaron Spelling, que topou a mudança.

Uma nota pessoal: conheci um ex-namorado de Kate Jackson, o produtor musical americano Roy Cicala, já falecido, e que morou no Brasil durante quase uma década. Em meio a uma conversa com ele, regada a Jack Daniel’s, vinte anos atrás, ele me pediu para digitalizar algumas fotos que tinha em papel. Entre os registros, vários instantâneos com ele e John Lennon (Cicala foi um dos engenheiros de som do álbum “Double Fantasy). Mas entre todas as fotografias, havia duas que me chamaram muito a atenção — eram da ex-pantera Kate Jackson. Perguntei a ele como a Sabrina da série era como ser humano. “Uma das pessoas mais íntegras que conheci”, respondeu Roy.

Os roteiros de “As Panteras” deixam a desejar, mas ainda divertem. E é prazeroso ver três moças brigando de igual para igual com os marmanjos, uma coisa normal nos dias atuais – mas algo totalmente inesperado para os anos 1970. Por isso, principalmente para quem é da minha geração, vale a pena maratonar esse seriado – nem que seja para ver apenas a primeira temporada. Está à disposição dos assinantes do Prime Video.

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