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Mentiras e champanhe ao vivo

Da redação
10 de setembro de 2022

Nas redes sociais corre o neologismo “desver”, empregado quando algo reprovável, embaraçoso ou extremamente vulgar é compartilhado. Uma dessas postagens foi escolhida a Fake News da Semana. Quando foi noticiado a morte da rainha Elizabeth II, o apresentador argentino Gabriel Santiago Cúneo (imagem), que comanda o programa em TV aberta “Cúneo al mediodía”, lançou impropérios e mentiras ao vivo, o que gerou críticas.

“Se murió la vieja, terminó de una buena vez, fuerte aplauso para Satanás que se la llevó. Se ha terminado yo le prometí que íbamos a brindar cuando se muriera esta basura británica”, disse Santiago Cúneo, que em plena bancada abriu um champanhe para comemorar. Ele acusou a rainha de ser simpatizante do nazismo – justo a soberana do país que sob seu pai, Jorge VI, por mais tempo enfrentou sozinho Hitler e Mussolini na 2ª Guerra Mundial -, entre outros descabimentos: “Por fin se muere alguien correcto en la vida. Vamos a brindar por la muerte de la basura de la reina de Inglaterra. Estamos festejando. Ha sido un tormento. Esta admiradora de Hitler por fin ha llegado a su fin.” Parte das críticas é fruto de um trauma nacional, a derrota na Guerra das Falklands/Malvinas, em 1982, quando morreram em combate 649 militares argentinos e 1.657 foram feridos, a maioria jovens recrutas com pouco treinamento e equipamento inadequado. Outros 11.313 foram aprisionados.

Antissemitismo

Aos fatos. Em uma monarquia parlamentarista, Elizabeth II não teve papel no conflito. Isso ficou com Margareth Thatcher, então a primeira-ministra que escolheu ir à guerra. À rainha sobrou rezar pela integridade de seu filho, o príncipe Andrew, então quarto na linha de sucessão e copiloto de helicóptero no porta-aviões HMS Invencible. Ele poderia ser removido para um posto seguro, mas sua mãe insistiu para que ele seguisse evacuando feridos, caçando submarinos e atraindo mísseis disparados contra a frota. Outro ponto que costuma ser ignorado por gente maliciosa como Cúneo é que o conflito foi causado pela Junta Militar argentina, que também torturou e matou cerca de 30 mil civis compatriotas nos anos anteriores, sumindo comos corpos. Violentos, autoritários e corruptos, os militares platinos quase criaram uma guerra contra o Chile, então uma imperdoável ditadura de extrema direita sob o general Augusto Pinochet.

Por fim, é preciso contar quem é a figura. Antes de enveredar pelo entretenimento televisivo popularesco, Gabriel Santiago Cúneo foi dono da CopPetrol, que nos anos 1990 vendia combustíveis contrabandeados e adulterados com água. Desde 2005 ele tenta a carreira política como vereador, prefeito e deputado, sempre perdendo. Seu melhor momento foi quando apresentou “Uno Más Uno Tres”, popular programa de jornalismo político criado em 2013. Politicamente, ele vai para o lado que lhe parecer melhor, apesar de estar ligado aos justicialistas de centro-esquerda. Antes, sua proximidade com militares rebelados do movimento Carapintados, em especial o coronel Aldo Rico, lhe rendeu a expulsão do partido de centro União Cívica Radical (UCR). Mais tarde, foi opositor virulento dos Kirchner, depois atacou com a mesma força o governo de Mauricio Macri, o que lhe rendeu, em 2018, processos por “incitação ao ódio, desrespeito à figura presidencial e defesa da sedição”. Ele também enfrenta acusações de antissemitismo por afirmar que “judeus não são argentinos”.

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