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Gorbachev morre entre a URSS que derrubou e a Rússia que jamais quis

André Vargas
30 de agosto de 2022

“Mikhail Sergeevich Gorbachev morreu esta noite após uma doença grave e longa”, informou de modo lacônico e protocolar o Hospital Clínico da Academia Russa de Ciências, em Moscou, nesta terça-feira (30). O último líder da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) fazia hemodiálise e, por recomendação médica, ficou internado durante boa parte da pandemia. Ele se foi perdido entre vácuos. O primeiro provocado pela idade avançada que lhe tirou o semblante arguto e simpático, oposto aos de seus antecessores desde a Revolução de Outubro de 1917 (novembro em nosso calendário), o segundo, pela extinção do mundo que viveu e da morte prematura do futuro que almejou para seus compatriotas.

Mesmo assim, Gorbachev deixa ao mundo a lembrança do terror que evitou. Como secretário-geral do Partido Comunista Soviético (1985-1991), o PCUS, e brevemente presidente da URSS (1990-1991), foram seus esforços diplomáticos que em grande parte contiveram a escalada armamentista nuclear com os Estados Unidos. Suas ações pelo Fim da Guerra Fria lhe garantiram o prêmio Nobel da Paz em 1990.

Em paralelo, encantou o mundo com a possibilidade de duas fracassadas reformas paralelas, a glasnost e a perestroika, respectivamente, “transparência” e “reestruturação” – palavras não muito diferentes das que ouvimos por aqui em matéria de reformas. A primeira pretendia esvaziar gradativamente o poder absoluto do PCUS, descentralizando parte das decisões políticas no país. Já a reestruturação governamental e reorganização deveriam eliminar a baixa produtividade e conferir alguma eficiência à economia. Tais metas se mostraram falhas e, como descreveu seu biógrafo Zhores Medvedev, “Gorbachev não é um liberal nem um reformista ousado”. No glossário marxista, teria lhe faltado as “condições objetivas” para a mudança, seja por falta de habilidade, resistências internas e deficiências infraestruturais. É possível apontar uma dúzia de causas diferentes.

Oligarcas

O caos econômico subsequente levou ao desmanche da URSS, que abandonou o socialismo de modelo centralista leninista-stalinista sem jamais adotar um capitalismo de mercado, nem sequer a social-democracia, que veladamente Gorbachev admitia em alguns níveis, mesmo antes de assumir o poder, após a morte do já idoso e breve no poder Konstantin Chernenko (1984-1985). Afastado do poder e desprezado pelos compatriotas por causa da longa crise que criou e não soube domar, viu a indústria pesada, em especial as de mineração e de petróleo, serem fatiadas entre os novos oligarcas amigos do poder, em especial a partir da chegada Vladimir Putin ao Kremlin, em 2000.

Prestigiado no Ocidente, hoje se sabe que foi manipulado por Putin, que o usou para abrir portas aos negócios com países europeus enquanto ainda se fazia apresentar como um democrata, apesar de “certo autoritarismo”, como descreveu Gorbachev. Enquanto criticava a atuação do governo George W. Bush, que tentava pressionar a Rússia, assim como a contínua expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o antigo líder teve suas iniciativas políticas paulatinamente cerceadas por Putin.

Quando eclodiu a guerra separatista na Ossétia do Sul, em 2008, viu uma mini nova Guerra Fria se instalar com o apoio americano à Geórgia. Afastado do poder, mas ainda com prestígio, criticou a manipulação das eleições de 2011, alegando no ano seguinte que Putin “incorporou as piores características burocráticas da União Soviética”. Depois, apoiou a onda de protestos que durou dois anos e deu a desculpa para o governo russo se tornar ainda mais autoritário. Em 2014, alertou que o conflito no Donbass, na Ucrânia, poderia criar as condições para um novo conflito em larga escala contra o Ocidente. Ninguém deu bola.

Herança roubada

E foi assim. De derrota em derrota, um dos homens mais poderosos do mundo nos anos 1980 e de maior influência no século 20 escreveu seu nome na história pela revolução que não fez. Com avós maternos ucranianos, nasceu em Privolnoye, em Stavoprol, entre os mares Negro e Cáspio, em 1931, durante a Grande Fome. Em seu livro de memórias, registrou: “Naquele ano terrível [em 1933] quase metade da população de minha aldeia natal, Privolnoye, morreu de fome, incluindo duas irmãs e um irmão de meu pai”. O irônico é que seu avô materno era um ferrenho comunista que ajudou a criar a fazenda coletiva perto de sua vila. Depois, ambos foram presos e torturados nos Expurgos de Stalin.

Doente, em seus anos finais Gorbatchev expressou seu repúdio a Putin, que lhe roubou a herança política tentando recriar uma Rússia que repete a URSS no que há de pior: corrupta, xenófoba, desigual, militarista e autoritária. Conforme seu desejo, será enterrado no cemitério Novodevichy, em Moscou, em um túmulo familiar ao lado de sua esposa, Raíssa, falecida em 1999.

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