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O que chama atenção no discurso de Bolsonaro na ONU

Aluizio Falcão Filho
21 de setembro de 2021

Alguns pontos chamam atenção no discurso do presidente Jair Bolsonaro na Organização das Nações Unidas – além do fato de que foi mal escrito, enumerando tópicos aleatórios sem amarração entre si.

O principal talvez seja o de que Bolsonaro se utiliza de um momento no qual é ouvido por representantes de quase todas as nações do mundo para passar recados regionais: culpar governadores e prefeitos pelo desemprego, fazer a apologia do tratamento precoce, mostrar que tem apoio popular, citando manifestações de Sete de Setembro, e se apresentar próximo dos militares.

Chama a atenção também um trecho: “respeitamos a relação médico-paciente na decisão da medicação a ser utilizada e no seu uso off-label”. Provavelmente, em 76 anos de existência da ONU, essa foi a primeira vez que um discurso de chefe de Estado contou com a expressão que define a aplicação de um medicamento para obter um resultado que não está na bula.

Além disso, o presidente bate em algumas teclas para agradar seus apoiadores: falar em Deus, exaltar a “família tradicional” e bater no comunismo (curiosamente, o prédio no qual discursava o presidente foi co-projetado pelo arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer, um notório comunista).

“Estávamos à beira do socialismo”, disse Bolsonaro, para mostrar que, nos tempos do Partido dos Trabalhadores havia prejuízo nas estatais (não exatamente um privilégio de socialistas) e que o BNDES foi utilizado para financiar obras em países com regimes de esquerda. Esses dois pontos são verdadeiros – mas o presidente editou a história e apagou convenientemente o governo de Michel Temer, que comandou o Brasil por 2 anos e quatro meses. Temer pode ser acusado de várias coisas, menos de socialista.

O presidente tentou mostrar que o Brasil não é tão ruim como parece aos estrangeiros. Isso é verdade. O problema é que o tom do discurso parece provinciano e defensivo, temperado de picuinhas regionais. É bom lembrar: Bolsonaro está falando com representantes de todo o mundo, não para os brasileiros. “Meu governo recuperou a credibilidade externa e, hoje, se apresenta como um dos melhores destinos para investimentos”, afirmou Bolsonaro um pouco antes de encerrar sua fala.

Em alguns setores econômicos, o Brasil é de fato uma grande opção, apesar de todos os problemas que já conhecemos, a começar pelo intrincado sistema de impostos federais, estaduais e municipais. Mas dizer que o país “recuperou a credibilidade externa” é um grande exagero. Infelizmente, o Brasil hoje é achincalhado na Europa e não é considerado como um parceiro estratégico para os Estados Unidos.

É preciso fazer um trabalho de recuperação de imagem junto aos investidores internacionais. Trabalho esse que fica mais difícil a cada discurso que Bolsonaro profere na ONU.

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