Da chegada da lata de alumínio ao Brasil às novas cores, formatos e campanhas especiais, década transformou a embalagem em ferramenta de marketing e abriu caminho para o design que ocupa as prateleiras hoje
Antes das latas com nomes, edições de festivais, desenhos colecionáveis e embalagens criadas para viralizar nas redes sociais, houve uma década em que imprimir quatro cores já representava parte do limite tecnológico da indústria.
Os anos 1990 mudaram essa história no Brasil. Foi nesse período que a lata de alumínio se espalhou pelo mercado de bebidas e começou a ganhar novas cores, tamanhos e possibilidades gráficas. Aos poucos, aquilo que servia principalmente para armazenar cerveja ou refrigerante passou também a carregar campanhas, personagens, eventos e referências culturais.
Para João André Vilas Boas, gerente do Can Experience, centro gráfico da Ball para a América do Sul, foi ali que as marcas começaram a perceber uma segunda função para a embalagem.
“Mais do que uma nova embalagem, a lata de alumínio trouxe um conceito inovador que transformou a forma de pensar o negócio de bebidas na região. As marcas passaram a enxergar a embalagem como uma poderosa plataforma de marketing, um verdadeiro outdoor nas mãos do consumidor”, afirma.
A chegada do alumínio
A história havia começado pouco antes. Em 26 de outubro de 1989, a Latasa iniciou em Pouso Alegre, Minas Gerais, a produção e comercialização de latas de alumínio para bebidas no país. A primeira produção foi encomendada pela Skol.
Naquele momento, o mercado ainda era fortemente dominado pelas garrafas de vidro, enquanto as latas existentes eram principalmente de aço.
A diferença de peso ajudava a explicar o interesse pela nova embalagem. Uma lata de aço de 350 ml pesava cerca de 40 gramas, enquanto a equivalente de alumínio chegava a aproximadamente 14 gramas. Coca-Cola, Pepsi e Kaiser estavam entre as marcas que também aderiram ao formato logo no começo da produção nacional.
A resposta do mercado veio rapidamente. Em 1993, apenas quatro anos depois do início da produção nacional, o país já comercializava mais de 1 bilhão de latas de alumínio por ano.
Mas a transformação dos anos 90 não aconteceu apenas no material usado para fabricar a embalagem.
Quando a lata entrou na campanha
Com uma superfície que podia receber cores, desenhos e mensagens, a lata começou a ser incorporada à comunicação das próprias marcas.
Campanhas passaram a acompanhar acontecimentos esportivos, shows, feiras agropecuárias, aniversários de cidades e festas do calendário nacional e regional.
“As campanhas eram as mais diversas. Contavam histórias, levavam mensagens e celebravam momentos e festas do calendário cultural nacional ou regional, como futebol, feiras agropecuárias, aniversários de cidades históricas e shows musicais”, lembra Vilas Boas.
Essa possibilidade ajudou a transformar a lata em um objeto que também podia ser guardado. Séries com diferentes desenhos e edições especiais estimularam uma lógica de coleção que permanece presente décadas depois.
Não por acaso, muitas embalagens daquele período hoje funcionam quase como registros gráficos de uma época. Mudanças de logotipo, tipografia, cores e campanhas de marcas podem ser acompanhadas apenas olhando para uma coleção de latinhas antigas.
Quatro cores já eram um desafio
A criatividade, porém, dependia do que as máquinas eram capazes de imprimir.
Segundo a Ball, no começo dos anos 1990 as impressoras utilizadas para decorar latas de alumínio operavam com quatro cores. Ao longo da década, os equipamentos passaram a trabalhar com cinco e seis, aumentando significativamente as possibilidades de combinação.
Um dos marcos veio em 1994. Naquele ano, foi produzida para a Sprite a primeira lata da América do Sul com efeito degradê, segundo a companhia.
Hoje, a passagem gradual de uma cor para outra dificilmente chamaria atenção em uma embalagem. Naquele momento, representava um recurso gráfico que ainda não estava disponível nas linhas de produção da região.
“Essa evolução representou um salto significativo na qualidade visual das embalagens e abriu novas possibilidades para o design e a criatividade”, afirma Vilas Boas.

As próprias impressoras ficaram mais rápidas. De acordo com a Ball, equipamentos que decoravam aproximadamente 400 latas por minuto passaram, com a evolução tecnológica, a atingir cerca de 1.800 unidades.
Dados históricos do setor mostram como essa escala continuou crescendo. Em levantamento publicado pela Abralatas, linhas modernas já eram capazes de superar 2 mil latas impressas por minuto, enquanto a fabricação do corpo da embalagem também multiplicou sua velocidade desde o início da produção brasileira.
A lata também mudou por cima
Algumas das transformações mais importantes daquele período hoje passam praticamente despercebidas.
Uma delas está justamente na maneira de abrir a bebida.
O sistema Stay-On-Tab fez com que a lingueta permanecesse presa à tampa depois da abertura. Parece um detalhe banal atualmente, mas substituiu sistemas em que o anel era completamente retirado da embalagem.
A solução aumentou a praticidade e também evitou que uma peça separada fosse descartada após o consumo.

Outro movimento foi a redução do diâmetro das tampas, permitindo diminuir a quantidade de metal utilizada na fabricação de cada unidade.
O próprio corpo da lata também ficou mais leve ao longo das décadas. Na chegada do alumínio ao Brasil, uma embalagem de 350 ml pesava aproximadamente 14 gramas. Anos depois, o peso já havia caído para menos de 12 gramas.
De 350 ml para novos formatos
No começo, praticamente todo o mercado brasileiro de latas de alumínio girava ao redor do formato de 350 ml.
Isso começou a mudar em 1995, quando Pouso Alegre passou a produzir também embalagens de 500 ml, segundo a Ball.
O novo tamanho abria outra possibilidade para as fabricantes de bebidas: a embalagem deixava de ter um padrão praticamente único e começava a se adaptar a diferentes ocasiões de consumo.

Enquanto isso, a indústria crescia em velocidade acelerada. Dez anos depois da chegada da produção nacional, o Brasil já alcançava aproximadamente 10 bilhões de latas de alumínio produzidas por ano.
Da latinha colecionável à impressão digital
Mais de três décadas depois, a ideia descoberta pelas marcas nos anos 90 permanece: a superfície da embalagem também é mídia.
O que mudou foi a tecnologia disponível para ocupá-la.
Hoje, sistemas de impressão digital permitem trabalhar diretamente sobre as latas com imagens em alta definição e maior flexibilidade para criar séries especiais e tiragens menores.
Se antes adicionar uma quinta ou sexta cor representava um avanço, atualmente as embalagens conseguem reproduzir imagens muito mais complexas e variar artes dentro de uma mesma campanha.
Para Vilas Boas, essa transformação começou justamente quando a indústria percebeu que havia espaço para fazer mais do que identificar o líquido dentro da embalagem.
“A história da lata de alumínio é uma história de inovação contínua, adaptação e visão de futuro. Nos anos 90, ficou evidente que seu potencial ia muito além de armazenar bebidas”, afirma.
Parte dessa evolução hoje está preservada no Museu da Lata, instalado no Can Experience da Ball, em Jacareí, no interior de São Paulo. O espaço reúne cerca de 200 exemplares de diferentes épocas, dos primeiros modelos nacionais a projetos mais recentes de personalização.

Olhadas lado a lado, aquelas latas ajudam a contar mais do que a história de uma embalagem. Registram mudanças no design, na publicidade, nos hábitos de consumo e até na maneira como as marcas passaram a tentar ocupar um pequeno espaço na atenção do consumidor.
Muito antes das campanhas pensadas para Instagram ou TikTok, parte dessa disputa já acontecia em uma superfície de alumínio de 350 ml.
