Após apostar em vitória de Flávio Bolsonaro, mercado reage à reeleição de Lula com quedas de até 17% no Ibovespa, disparada do dólar e pressão sobre os juros
A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) provocou uma reviravolta no mercado financeiro nesta segunda-feira (26). Após semanas de valorização impulsionada pela expectativa de vitória de Flávio Bolsonaro (PL), a Bolsa brasileira registrou perdas de quase 17%, o dólar chegou a R$ 5,60 e os juros futuros dispararam. O movimento reverteu parte dos ganhos recentes e colocou as contas públicas no centro das preocupações dos investidores.
O Ibovespa, que havia encerrado a sexta-feira (23) acima dos 205 mil pontos, chegou a recuar para a faixa dos 169 mil pontos nesta manhã. A queda levou a B3 a acionar o circuit breaker, mecanismo que suspende temporariamente as negociações em situações de forte desvalorização, pela primeira vez desde a pandemia de covid-19, em 2020.
A reação refletiu a frustração de parte do mercado, que apostava em uma mudança de governo e em medidas mais rigorosas de ajuste fiscal. Com a vitória de Lula por 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, investidores passaram a reavaliar os riscos associados à política econômica do próximo mandato.
Quem mais perdeu e quem escapou da queda?
As perdas atingiram principalmente empresas sensíveis aos juros e ao consumo interno. No varejo, Magazine Luiza e C&A chegaram a registrar quedas próximas de 50%. Na construção civil, Cyrela e MRV recuaram mais de 40%, pressionadas pela perspectiva de crédito mais caro.
O setor financeiro também sofreu. As ações do Banco do Brasil chegaram a cair 31%, enquanto as do Bradesco perderam cerca de 24%. A própria B3 registrou desvalorização próxima de 50% em determinados momentos da manhã.
Na contramão, a Vale apresentou valorização superior a 7%, beneficiada pela alta do dólar, que favorece a receita em reais de companhias exportadoras.
A turbulência também chegou ao mercado de títulos públicos. O Tesouro Nacional cancelou os leilões de papéis prefixados e atrelados à inflação previstos para esta semana, mantendo a oferta de títulos vinculados à Selic.
O que esperar agora?
Para analistas, a intensidade da reação não depende apenas do resultado eleitoral, mas das perspectivas para a condução das contas públicas. A preocupação é que a ausência de medidas fiscais consideradas suficientes pelo mercado mantenha os juros elevados e pressione o câmbio.
O foco dos investidores se volta agora para a composição da equipe econômica, especialmente a escolha do ministro da Fazenda, e para os primeiros sinais sobre a política fiscal do quarto mandato de Lula.
A expectativa é de que a volatilidade continue enquanto o governo não apresentar diretrizes mais claras sobre gastos, dívida pública e equilíbrio fiscal. A reação inicial, porém, não determina necessariamente o comportamento da Bolsa no restante do mandato.
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