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O day after da vitória de Lula

Aluizio Falcão Filho
26 de outubro de 2026

Para 59,8 milhões de eleitores e uma boa parcela dos brasileiros, a eleição de ontem deixou uma ressaca que será difícil de curar tão cedo. Em um país dividido, é complicado encarar uma derrota eleitoral, em disputa na qual muitos se entregaram de corpo e alma. Mas a vida continua. E aceitar perdas faz parte de nosso aprendizado. Mas, antes de superar o gosto amargo da derrota, quem perdeu as eleições precisa entender quais foram os caminhos que levaram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição.

O primeiro de todos: o melhor candidato para a oposição seria o governador Tarcísio de Freitas e não o senador Flávio Bolsonaro. Mas quis o ex-presidente Jair Bolsonaro que o candidato do PL fosse seu filho, apesar de tudo o que lhe foi dito desde o final de 2025. A insistência do ex-presidente custou caro.

O segundo problema foi o salto alto calçado no day after do primeiro turno pelo candidato oposicionista. Enquanto Lula arregaçava as mangas e mudava tudo na campanha do PT, empoderando o deputado André Janones para fazer uma blitzkrieg digital, o comando do PL começou a discutir ministérios e demorou para reagir à estratégia petista. Militantes e simpatizantes do PT iniciaram um movimento agressivo de desconstrução da imagem do senador fluminense (com muitas fake news inclusive) e isso fez diferença no resultado.

Além disso, Janones colocou como uma de suas prioridades convencer os eleitores que se abstiveram no primeiro turno a comparecerem às urnas na etapa final das eleições. Cerca de 3 milhões de eleitores que faltaram à votação do dia 5 de outubro foram às seções eleitorais ontem. Nulos e brancos também tiveram uma redução de 32% no segundo turno em relação à primeira etapa do pleito.

A esse conjunto de fatores some-se o pacote de bondades e benesses oferecido na reta final das eleições, um movimento que deixou desconfortáveis brasileiros de centro e de direita. Em compensação, deu combustível à candidatura de um presidente que amargava altos índices de desaprovação e foi importante para a sua virada de jogo.

Mas o que significa a vitória de Lula para o empresariado?

A resposta é simples: trata-se de um pesadelo. Economia é movida por expectativas. E as perspectivas desenhadas pelo quarto mandato de Lula não são promissoras. Para começar, a irresponsabilidade fiscal do governo é vista com desconfianças pelo mercado financeiro e isso deve manter os juros altos durante mais tempo que as empresas endividadas podem aguentar. A cotação do dólar também deve sofrer aumentos e isso turbina a inflação, que também alimenta as taxas de mercado.

A reforma tributária deve dificultar bastante a vida das empresas de serviços, responsável por mais de 60% da formação do PIB, de acordo com dados da Fecomércio de Minas Gerais. Novidades criadas para turbinar a arrecadação, como o split payment, vão reduzir ainda mais o já combalido capital de giro da iniciativa privada.

Trata-se de um cenário bastante desafiador. Mas os empresários brasileiros são resilientes e guerreiros, embora estejam bastante desanimados com o resultado de ontem. Haverá uma ressaca gigantesca que terá de ser digerida e superada. Mas isso será suficiente para criar um marasmo econômico por alguns meses. Será preciso muito esforço e criatividade para superar esse período complexo.

Nessa hora delicada, é possível encontrar sabedoria nos ensinamentos do estoicismo, uma escola filosófica fundada por Zenon de Cítio em Atenas, por volta de 300 a.C., e aprimorada pelo filósofo romano Sêneca. O conceito principal dos estoicos é concentrar a energia naquilo que está sob nosso controle.

Para o estoicismo, a derrota eleitoral pode ser um ótimo campo de discussão. O primeiro passo é separar o que dependia do eleitor, como o voto e sua participação nos debates políticos, do que estava fora de seu alcance: a escolha de milhões de outras pessoas. Sêneca dizia que o primeiro abalo diante de uma notícia ruim é natural e involuntário. Mas o grande problema é alimentar essa comoção até virar rancor. A aceitação estoica convive com a virtude da justiça: os derrotados têm de seguir participando no processo político. Isso significa fiscalizar o governo eleito, apoiar a oposição dentro das regras e voltar às urnas na próxima eleição, movidos pela convicção e livre da raiva.

Para o empresário, a lição estoica tem aplicação imediata. O resultado das urnas, os juros e o câmbio estão fora de seu alcance. A gestão do caixa, o controle do endividamento, a revisão de preços e contratos e a preparação para as mudanças da reforma tributária, inclusive o split payment, estão nas suas mãos. Sêneca recomendava antecipar as adversidades para não ser surpreendido por elas, conselho que no mundo corporativo atende pelo nome de planejamento de cenários. Temos também de lembrar que tudo passa, inclusive os governos. Um mandato dura quatro anos e quem atravessar esse período com as contas em ordem e a cabeça no lugar estará em condições de aproveitar as oportunidades que certamente virão.

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