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Os pontos fortes (e fracos) de Flávio Bolsonaro e Lula no último debate antes da eleição

Rodrigo Dias
24 de outubro de 2026
Senador explorou custo de vida, endividamento e segurança pública, enquanto presidente defendeu o legado de seu governo. Confronto terminou com acusações pessoais e dúvidas sobre o impacto na decisão dos eleitores

O último debate presidencial antes do segundo turno, realizado pela TV Globo na sexta-feira (23), colocou Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) frente a frente em um confronto que começou com a apresentação de propostas e terminou marcado por acusações pessoais. Às vésperas da votação deste domingo (25), os candidatos buscaram reforçar seus principais argumentos eleitorais e explorar as vulnerabilidades do adversário, em uma disputa na qual o custo de vida, o endividamento das famílias, a segurança pública e os casos de corrupção ocuparam espaço central.

A avaliação dos desempenhos aponta estratégias distintas. Flávio procurou associar o governo Lula à deterioração do poder de compra e à insegurança, enquanto o presidente recorreu à experiência administrativa, às políticas sociais e aos resultados de suas gestões. Ambos, porém, tiveram momentos de exposição a críticas, especialmente quando as perguntas exigiram explicações sobre decisões anteriores ou acusações envolvendo aliados e familiares.

Flávio Bolsonaro: custo de vida como trunfo, mas com pontos vulneráveis

O principal ponto forte do senador foi manter o debate conectado a questões concretas do cotidiano, como o preço dos alimentos, as dívidas e a dificuldade das famílias para fechar as contas no fim do mês. Ao afirmar que o brasileiro passou a parcelar até os produtos que coloca na geladeira, Flávio procurou transformar a insatisfação econômica em argumento contra a continuidade do governo petista.

Na mesma linha, apresentou propostas para renegociar dívidas de pessoas físicas e empresas, ampliar o acesso ao crédito por meio da Caixa Econômica Federal e facilitar a formalização de empreendedores. Na segurança pública, reforçou a promessa de recuperar territórios dominados pelo crime organizado, endurecer penas e ampliar a cooperação com governadores.

O senador também tentou se diferenciar com propostas para infraestrutura, educação e agronegócio, incluindo a conclusão de obras paradas, a ampliação do ensino técnico e o combate à burocracia no acesso ao crédito rural. A estratégia foi apresentar uma agenda de mudanças e associar o adversário a problemas que persistem no país.

O ponto fraco apareceu quando Lula o confrontou com decisões de seu passado político. Questionado sobre o voto contrário à ampliação da licença-maternidade para servidoras estaduais, Flávio reconheceu que estava errado e afirmou que hoje votaria de maneira diferente. Embora tenha respondido diretamente à questão, a admissão deu ao presidente a oportunidade de questionar a mudança de posição em ano eleitoral.

Outro momento delicado ocorreu na discussão sobre segurança pública. Lula trouxe ao debate o caso de Ana Clara, menina de cinco anos morta por um disparo de fuzil durante uma ação policial no Rio de Janeiro, em 2021. Flávio foi questionado por sua atuação na defesa do policial acusado pelo disparo e, segundo a cobertura do UOL, cometeu uma gafe ao chamar a mãe da menina pelo nome da filha.

No bloco final, dedicado a temas livres, o senador também precisou responder a questionamentos sobre a compra de um imóvel de R$ 5,9 milhões e sua relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. Flávio negou irregularidades e contra-atacou com acusações contra Lula e seu entorno. A sequência ampliou a exposição do candidato a temas que desviaram o debate da agenda propositiva.

Lula: experiência e políticas sociais, mas sob pressão econômica

O principal trunfo do presidente foi explorar a experiência de governo e defender políticas públicas associadas às gestões petistas. Ao abordar infraestrutura, Lula citou investimentos que, segundo ele, somam R$ 1,7 trilhão e mencionou obras como a Transnordestina e o túnel Santos-Guarujá. Também procurou associar a valorização do salário mínimo, a expansão da educação e os programas sociais a resultados de sua administração.

Lula mostrou disposição para confrontar o adversário com decisões anteriores, como o voto sobre a licença-maternidade, e usou o histórico do governo Jair Bolsonaro para questionar a atuação de Flávio em áreas como saúde, meio ambiente e segurança. No debate sobre o salário mínimo, por exemplo, perguntou ao senador quanto seria o piso nacional sem os reajustes acima da inflação promovidos pelos governos petistas.

Na economia doméstica, o presidente reconheceu que o endividamento é um problema sério e defendeu novas medidas de renegociação de débitos. Também citou iniciativas voltadas a microempreendedores e a possibilidade de um leilão para a compra de dívidas bancárias que, segundo ele, poderá superar R$ 150 bilhões.

A vulnerabilidade de Lula esteve justamente na dificuldade de afastar a percepção de que o governo não resolveu problemas que pesam no orçamento das famílias. Flávio insistiu nos preços dos alimentos e na perda de poder de compra, obrigando o presidente a defender medidas já adotadas e anunciar novas iniciativas. A discussão colocou em evidência a distância entre os resultados que o governo reivindica e a experiência cotidiana de parte dos eleitores.

O presidente também enfrentou questionamentos sobre corrupção e relações políticas. No bloco de temas livres, Flávio mencionou o caso Banco Master, questionou supostas relações de Lula com Vorcaro e levantou acusações sobre o patrimônio de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Lula negou as acusações apresentadas pelo adversário e contra-atacou, questionando a relação do senador com o ex-banqueiro e a origem de seus recursos.

Ao insistir em acusações contra o adversário e seus aliados, Lula manteve a disputa em um terreno de confronto pessoal. A estratégia pode mobilizar eleitores já alinhados ao presidente, mas também reduziu o espaço para uma discussão mais detalhada sobre as propostas de seu eventual próximo mandato.

O bloco final e a disputa pela impressão do eleitor

O quarto bloco concentrou alguns dos momentos mais tensos do encontro. Além do caso Banco Master e das questões envolvendo familiares dos candidatos, entraram em cena a produção do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, e uma controvérsia envolvendo uma propriedade em Angra dos Reis atribuída a Flávio e ao advogado Willer Tomaz pelo jogador Richarlison. O senador negou envolvimento irregular.

A troca de acusações também retomou temas que já haviam marcado a campanha, como a abertura de sigilos bancários, telefônicos e fiscais e a relação dos candidatos com pessoas investigadas. O tom se distanciou da apresentação de propostas que havia predominado nos primeiros blocos.

O saldo, portanto, não se resume a quem apresentou mais propostas ou fez mais ataques. Flávio conseguiu manter o custo de vida e a segurança no centro de sua argumentação, mas foi pressionado por decisões passadas e questões envolvendo seu entorno. Lula defendeu o legado administrativo e as políticas sociais, mas teve de responder à cobrança sobre o endividamento e o poder de compra, além de enfrentar acusações no campo da corrupção.

Debate não deve ser tratado como fator decisivo da eleição

Apesar da expectativa em torno do último confronto antes da votação, o debate da Globo não necessariamente será o fator determinante do resultado. Fatores mais amplos — como o preço dos alimentos, a situação das dívidas e a capacidade de consumo — podem pesar mais na decisão de uma parcela do eleitorado do que o desempenho dos candidatos em um programa de televisão.

Essa leitura também ajuda a dimensionar o alcance do confronto: em uma disputa apertada, os debates podem reforçar convicções, mobilizar apoiadores ou produzir episódios de repercussão, mas não há garantia de que sejam suficientes para alterar escolhas já consolidadas. Com a votação marcada para domingo (25), o efeito real das últimas horas de campanha dependerá menos de uma contagem de pontos no estúdio e mais da maneira como cada eleitor chega às urnas.

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