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Um detalhe que explica o teto dos dois candidatos nas pesquisas eleitorais

Aluizio Falcão Filho
22 de outubro de 2026

Desde o primeiro turno, as pesquisas de intenção de voto flutuam alguns pontos para lá e para cá, mas apresentam (com exceção de uma ou duas) um resultado muito parecido. A impressão que se tem é a de que os dois candidatos não conseguem furar suas respectivas bolhas e estão contidos pelos efeitos da polarização.

Mas talvez a explicação não esteja apenas na divisão política do país, mas em um detalhe revelado pela última pesquisa Meio/Ideia, que aponta 51,1% para Flávio Bolsonaro e 48,9% para Luiz Inácio Lula da Silva. Os entrevistadores perguntaram aos eleitores o seguinte: “Na sua opinião, para uma pessoa como você a expressão “melhorar de vida” significa?”.

A enquete apontou que 43,3% dos entrevistados responderam que a melhora de vida seria “ter o próprio negócio ou trabalhar por conta própria, com mais autonomia sobre horários e ganhos”. Já 32% disseram que o significado de uma existência melhor seria “trabalhar com carteira assinada, com direitos garantidos, como férias, 13º e FGTS”.

Aqui temos uma pista importante para entender as limitações de cada postulante à presidência, em especial a de Lula. As propostas de Flávio têm a ver com aqueles que enxergam no empreendedorismo uma forma de prosperar. Já Lula bate sempre na tecla de benefícios sociais e direitos trabalhistas, o que sensibiliza (pelo menos segundo o estudo) 32% do eleitorado.

No fundo, isso mostra que boa parte do pacote de benesses do governo não necessariamente tem o poder de virar votos daqueles que não se seduzem pela CLT. E o grupo que dá importância a tudo que vem com a carteira assinada é a minoria.

Quando analisamos esses dados, vemos que o Brasil está dividido entre aqueles que desejam a prosperidade através do negócio próprio, com toda a insegurança que vem junto com o pacote do empreendedorismo, e aqueles que desejam estabilidade proporcionada por um emprego. Mas a mentalidade empreendedora já é maioria. Não é à toa, portanto, que o candidato Flávio tenha falado tanto recentemente em criar um ministério voltado para a prosperidade (na prática, seria uma repaginação do Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte, que existe desde 2024).

O curioso é que o próprio governo Lula tinha em mãos o instrumento para disputar esse eleitor: foi na atual gestão que o empreendedorismo ganhou um ministério próprio. Mas a pasta nunca virou bandeira de campanha. O discurso do presidente continuou ancorado na lógica do emprego formal, do salário-mínimo e dos programas de transferência de renda, como se o Brasil de 2026 fosse o mesmo de 2003. Flávio percebeu antes essa mudança de valores e ajustou sua mensagem a ela. Sua direita é menos a da pauta de costumes, que marcou o bolsonarismo raiz, e mais a do dono do pequeno negócio ou de quem é vendedor, mas sonha em abrir a própria loja. É uma direita que fala mais de oportunidade, e isso tem permitido ao senador dialogar com eleitores que não se identificavam com seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Isso não significa que todo aspirante a empreendedor votará em Flávio, nem que todo defensor da CLT estará com Lula. Mas, numa eleição decidida por margens estreitas, a sintonia com a aspiração da maioria pode valer mais do que qualquer programa de governo. E há ainda um quarto do eleitorado que não se encaixou em nenhuma das duas respostas da pesquisa, um contingente que pode definir o resultado. Se Lula não conseguir convencer esse grupo de que também entende o desejo de quem quer prosperar por conta própria, corre o risco de ver no dia 25 de outubro que o teto de sua candidatura não foi construído pela polarização, mas por um discurso que deixou de acompanhar a vida real de boa parte dos brasileiros.

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