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Mitos e verdades sobre a abstenção em 2026

Aluizio Falcão Filho
21 de outubro de 2026

Quando as urnas foram apuradas em 4 de outubro, o Tribunal Superior Eleitoral divulgou que 33,4 milhões de eleitores se abstiveram de votar, um índice recorde no Brasil. Foi o suficiente para que a direção do PT encontrasse nesse fenômeno uma explicação para a derrota de Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro turno. À primeira vista, essa análise faria sentido, uma vez que as regiões mais pobres são aquelas que tradicionalmente mostram índices altos de abstenção.

Mas talvez essa tese não esteja correta. Uma análise do cientista político Fábio Vasconcellos, publicada no site Amado Mundo com base nos microdados do TSE, desmonta essa explicação. A abstenção foi recorde, é verdade, mas cresceu apenas um pouco em comparação a 2022, passando de 20,95% para 21,08%. E, ao contrário do que se imaginava, o comparecimento aumentou justamente nos redutos petistas: a abstenção caiu no Nordeste e no Norte, com destaque para estados como Maranhão, Pará e Ceará, e cresceu no Sul e no Sudeste.

Nas urnas nordestinas, onde a abstenção recuou com força, Lula perdeu 3,4 pontos e Flávio Bolsonaro ganhou 4,5. Onde a abstenção subiu, o desempenho foi quase idêntico: queda de 2,9 pontos para o petista e alta de 3,6 para o senador. A conclusão é incômoda para o governo e mostra que os marqueteiros petistas começaram a campanha de segundo turno com premissas equivocadas: Lula não perdeu espaço por desmobilização de sua base, mas porque eleitores que foram às urnas mudaram de opinião e optaram por Flávio ou por nomes da terceira via.

A confusão inicial tem explicação: regiões mais pobres e menos escolarizadas costumam, ao mesmo tempo, votar mais no PT e registrar abstenção estruturalmente maior, o que cria uma correlação aparente, mas não uma relação de causa e efeito. É por esta razão que, nos últimos dias, o PT também passou a investir em mudar o voto de quem apertou o número 22 nas urnas eletrônicas. Trata-se de um trabalho muito mais difícil, mas a ideia é trabalhar aqueles eleitores não convictos de Flávio.

Segundo pesquisa do Datafolha feita na semana após o primeiro turno, cerca de 6% dos eleitores declararam que poderiam mudar de voto no segundo turno (isso, no entanto, vale para as duas candidaturas). Quando usamos esse índice sobre os 56,1 milhões de votos dados ao candidato do PL, chegamos a um potencial de 3,4 milhões de votos que poderiam trocar de mãos.

Lembremos que a distância entre os dois finalistas foi de apenas 2,2 milhões de sufrágios. É por isso que a campanha de Lula quer encontrar alternativas para virar o jogo em estratégias nunca utilizadas antes. No papel, a conta parece animadora para o PT. Como cada eleitor que troca Flávio por Lula tira um voto de um lado e acrescenta ao outro, bastaria convencer cerca de 1,1 milhão de pessoas, um terço daquele contingente vacilante, para zerar a diferença.

Mas a matemática eleitoral raramente é tão generosa. Os mesmos 6% valem para o eleitorado de Lula, o que significa que outros 3,2 milhões de votos petistas também estão em disputa. E os sinais vindos da terceira via não ajudam: segundo o próprio Datafolha, quem votou em Caiado, Zema, Renan Santos ou Cury no primeiro turno deve migrar mais para o senador do que para o presidente.

A outra frente, a dos ausentes, é ainda mais incerta. Se a abstenção já caiu nos redutos petistas, sobra pouco eleitor lulista para resgatar em casa. Boa parte dos 33,4 milhões que não votaram é formada por idosos, pessoas que mudaram de domicílio e outros grupos que dificilmente serão sensibilizados por uma campanha de três semanas.

Além disso, não há nenhuma evidência de que, se comparecessem, votariam majoritariamente em Lula. Virar a eleição não é impossível, mas exige que o presidente faça, ao mesmo tempo, duas coisas que sua campanha ainda não conseguiu realizar: tirar votos do adversário e convencer quem desistiu das urnas de que vale a pena sair de casa para votar no PT.

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