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A raiva que alimenta os extremos

Aluizio Falcão Filho
17 de outubro de 2026

A polarização política cresce à medida que as eleições se aproximam. E as forças ideológicas intermediárias, geralmente mais comedidas, estão se contaminando pelos grupos extremistas, que dilatam a pauta de discussões do mundo físico e das redes sociais. Em cada postagem feita no silêncio do anonimato digital ou em um argumento dito na mesa dos bares, percebe-se que a raiva não é mais disfarçada. E é essa raiva que alimenta os extremos. Os dois lados acham que seus oponentes são os vilões dessa disputa. E cada um deles tem seus motivos para alimentar a ira que se vê nessas discussões, virtuais ou não.

A raiva que a direita tem da esquerda vem de muito tempo atrás e foi personalizado por figuras como o senador americano Joseph McCarthy ou o governador Carlos Lacerda. Os dois, por sinal, foram mestres da comunicação do seu tempo. McCarthy calculava acusações para caber no fechamento das agências de notícias, sabendo que o desmentido nunca teria o mesmo espaço. Já Lacerda tinha seu espaço nos jornais, no rádio e na TV, além de uma oratória demolidora.

O anticomunismo de McCarthy e de Lacerda tinha várias raízes e uma delas era religiosa. McCarthy era um católico de origem irlandesa num momento em que a Igreja travava guerra aberta contra Moscou. Por sua vez o governador carioca, ex-militante da juventude comunista, converteu-se ao catolicismo no fim dos anos 1940, sob influência de intelectuais como Gustavo Corção, e passou a enxergar o comunismo como um erro moral, não apenas político.

Estes dois símbolos do anticomunismo reagiam também a ameaças que não eram imaginárias. Nos Estados Unidos, poe exemplo, a espionagem soviética existiu e foi comprovada décadas depois pela abertura dos arquivos do projeto Venona. O país vivia o choque da bomba atômica russa, da vitória de Mao na China e da Guerra da Coreia. No Brasil, a memória do levante comunista de 1935, a Revolução Cubana, as Ligas Camponesas e a revolta dos sargentos de 1963 alimentavam a percepção de que a ordem estava sob risco real. É nesse ponto que a historiografia se divide. Para os críticos, McCarthy e Lacerda exploraram um medo legítimo com acusações sem prova e métodos que corroíam a própria democracia que diziam defender. Para os defensores destes políticos, o exagero estava na forma, não no diagnóstico. A verdade provavelmente está no cruzamento das duas leituras: havia um perigo concreto, mas eles o ampliaram muito além dos fatos, porque o medo também rendia votos e audiência.

A raiva que a direita radical nutre hoje pelo PT reaproveita, com outros atores, as mesmas matrizes que moviam McCarthy e Lacerda. O papel do catolicismo anticomunista dos anos 1950 passou a ser ocupado sobretudo pelo eleitorado evangélico e o conflito trocou a propriedade privada pela pauta moral: aborto, drogas e a chamada ideologia de gênero.

A raiva de parte da esquerda contra a direita segue um roteiro parecido, com os sinais trocados. Há, para começar, um componente quase religioso. O sociólogo francês Raymond Aron chamou o marxismo de “ópio dos intelectuais” porque seria uma teoria que se assemelha à religião no sentido de que oferece uma explicação total do mundo e uma promessa de redenção. Quem segue os preceitos marxistas, dessa forma, não vê o adversário como um oponente intelectual, e sim como alguém moralmente inferior.

Dessa fé surge uma visão simplista da economia, em que o lucro é sinônimo de exploração e o empresário vira o culpado de quase tudo: desigualdade social, inflação, fome e destruição ambiental. Problemas complexos, que envolvem produtividade, juros, regras e incentivos, são são explicados unicamente pela ganância de alguns indivíduos. A riqueza é vista como algo que se tira de alguém, nunca como algo que se cria.

Some-se a isso o ressentimento. Uma parcela da esquerda é formada por gente com muito capital cultural e pouco dinheiro: professores, artistas, intelectuais e até profissionais urbanos. Eles assistem ao sucesso material do agronegócio, do pequeno empresário evangélico e do comerciante do interior, eleitores típicos da direita, e podem não se conformar com o fato de que quem leu menos prosperou mais (nem todos os esquerdistas, no entanto, são pessoas ressentidas).

Os exageros estão presentes nos dois lados da equação ideológica: assim como “comunista” virou xingamento para qualquer adversário da direita, “fascista” passou a ser aplicado a liberais, conservadores moderados e a quem simplesmente votou em Jair Bolsonaro por rejeição ao PT. Até a frustração eleitoral tem seu espelho. Um pedaço da direita contesta as urnas; parte da esquerda até hoje chama de “golpe” o impeachment de Dilma Roussef, conduzido pelo Congresso sob supervisão do Supremo Tribunal Federal.

Voltando ao passado: no final, a raiva cobrou seu preço justamente de quem a cultivou com mais talento. McCarthy foi censurado pelo Senado em 1954 e morreu três anos depois, aos 48 anos, consumido pelo álcool e pelo isolamento. Lacerda, que derrubou presidentes e sonhou a vida inteira com o Planalto, teve os direitos políticos cassados pelo regime que ajudou a instalar em 1964 e nunca chegou lá. A raiva tem essa característica: dá energia no curto prazo e cobra caro no longo. Rapidamente, os que odeiam passam a enxergar o mundo pela fresta estreita do ressentimento. Quem vê no outro um inimigo a ser destruído deixa de reconhecer que o outro lado, às vezes, tem razão. E os problemas reais que alimentam a ira dos dois extremos continuam lá, intocados: a corrupção, a desigualdade, a insegurança ou a economia que não cresce. Nenhuma destas questões foi resolvida por conta de um grito nas redes ou por uma briga na mesa do bar. A raiva promete grandeza a quem a sente, mas só entrega o contrário: torna as pessoas menores do que poderiam ser e o país mais pobre do que precisaria ser.

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