PATROCINADORES

Um país de desiludidos, apáticos e resignados

Aluizio Falcão Filho
15 de outubro de 2026

O índice recorde de abstenções nas urnas brasileiras, observado no primeiro turno das eleições, gerou muitos comentários, mas pouca reflexão. Afinal, por que 34 milhões de pessoas simplesmente não exerceram seu direito de votar? Talvez isso tenha a ver com uma descrença total em nossa capacidade de transformar um cenário tão deteriorado. Diante de tantos problemas que parecem insolúveis, nos transformamos em um país de desiludidos, apáticos e resignados.

A desilusão com a capacidade de resolvermos os problemas atuais gera apatia e resignação – e tudo isso retroalimenta um círculo no qual tudo vai piorando. Há uma decadência moral espalhada pelo país e não estamos falando de um eventual desrespeito à pauta tradicional de costumes. Os escândalos já não indignam ninguém, assim como a escalada da violência. Tudo se relativiza em função das posições ideológicas e discussões importantes se transformam em memes e reels nos TikToks da vida.

No epicentro desta falência moral, temos o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Provavelmente, Vorcaro é a pessoa que melhor representa o declínio ético que vivemos hoje no Brasil. O ex-banqueiro lançou mão de todos os artifícios que poderia usar para corromper as autoridades: dinheiro, artigos de luxo e até prostituição.

Mas até o mais anestesiado dos brasileiros, porém, se espantou com os tentáculos do controlador do Banco Master, que incluíam até uma participação oculta em rede internacional de prostitutas, que recrutava inclusive refugiadas ucranianas e venezuelanas, segundo informações divulgadas pela Polícia Federal.

Anestesiados pelas seguidas crises, os eleitores que foram às urnas buscam razões para justificar seus votos. Neste cenário, é muito comum ver os chamados eleitores envergonhados. “Não sou petista, mas não quero deixar o bolsonarismo voltar”, dizem uns. “Não sou bolsonarista, mas o Brasil não aguenta mais quatro anos de PT”, afirmam outros. Esses dois grupos se unem aos militantes ideológicos, petistas de carteirinha ou bolsonaristas inflexíveis, para compor os dois grandes blocos da polarização política. E essa complacência ideológica (votar naquele considerado o menos ruim) vai corroendo os valores da nossa nação e aumentando o ceticismo entre a população.

Toda essa derrocada de valores, de um lado, provoca a paralisia. Mas, de outro, pode estimular silenciosamente o desejo por mudanças. Sair desse atoleiro, porém, exige mais do que trocar o ocupante do Palácio do Planalto. Nenhum presidente, de direita ou de esquerda, reconstrói sozinho os valores de uma nação. O primeiro passo é recuperar a capacidade de indignação, independente do matiz ideológico: o escândalo do aliado precisa incomodar tanto quanto o do adversário ou continuaremos presos ao jogo do relativismo. O segundo é exigir que as instituições funcionem e o caso Vorcaro será um teste decisivo. Se terminar com punição efetiva para os envolvidos, seja qual for o cargo ou o partido, o país terá dado um recado poderoso à sociedade; se terminar em pizza, porém, confirmará a descrença dos 34 milhões que ficaram em casa.

Por fim, cabe a cada um de nós entender que o voto é o começo da participação política, não o seu ponto final. A apatia é confortável, mas tem um preço alto e quem o paga é justamente quem desistiu de se importar. Nesta eleição, não teremos as opções com as quais sonhamos. Mas precisamos de nos organizar para voltar a ter propostas concretas e comprometidas com o futuro já nas eleições de 2030. Caso contrário, seguiremos desiludidos, apáticos e resignados. Até quando?

COMPARTILHE:

Comentários

Uma resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

PATROCINADORES

Leia também