Para a gestora, janela para reequilibrar as contas públicas vai até meados de 2028
O próximo presidente da República terá de conduzir um dos maiores ajustes fiscais das últimas décadas para estabilizar a dívida pública brasileira. A avaliação é da Kinea Investimentos, no relatório batizado de “A Bela Adormecida”, que analisa os desafios fiscais que devem marcar o início do próximo governo.
Segundo a gestora, o desafio é comparável ao ajuste realizado em 1999, considerado o único grande esforço fiscal duradouro desde a redemocratização. A diferença é que, desta vez, o espaço para aumentar impostos é mais limitado, enquanto a dívida bruta do governo alcançou 82,5% do PIB. Para estabilizar essa trajetória, seria necessário gerar um superávit primário de pelo menos 2% do PIB, mas o orçamento de 2027 projeta apenas 0,1%.
A Kinea afirma que, pela primeira vez, o ajuste precisará ocorrer principalmente por meio da redução do crescimento das despesas obrigatórias. Dos R$ 2,83 trilhões previstos em despesas primárias para 2027, cerca de R$ 2,56 trilhões estão comprometidos com gastos obrigatórios, o que reduz significativamente a margem de manobra do governo.
De acordo com o relatório, os ajustes fiscais realizados nas últimas quatro décadas foram baseados principalmente no aumento de tributos e no corte de despesas discricionárias. Agora, a gestora considera que essas alternativas já não seriam suficientes para produzir o resultado necessário.
Entre as medidas apontadas pela Kinea, a de maior impacto seria a desindexação do salário mínimo, que hoje influencia uma parcela significativa das despesas obrigatórias do governo. A gestora também menciona a revisão de benefícios sociais, mudanças nas vinculações constitucionais de gastos e a redução de benefícios tributários, estimados em R$ 544 bilhões.
O relatório trata 2027 como um período de transição e considera 2028 como o ano-chave para a aprovação das reformas estruturais. Pelas estimativas da casa, o ajuste completo equivalente a cerca de 2 pontos do PIB seria alcançado apenas em 2029.
Além do ajuste fiscal, a Kinea destaca que será necessária uma redução do prêmio de risco embutido nos juros de longo prazo. Segundo a análise, apenas cortar gastos não seria suficiente para estabilizar a dívida pública sem uma melhora na percepção de risco fiscal do país.
A gestora trabalha com três cenários para os próximos anos. No cenário chamado de “O despertar”, as reformas avançam já em 2027, os juros reais de longo prazo recuam e a dívida se estabiliza próxima de 90% do PIB.
No cenário intermediário, chamado de “O sono leve”, o ajuste ocorre principalmente pelo lado das receitas, enquanto a dívida continua crescendo. Já no cenário mais pessimista, denominado “Os cem anos”, não há ajuste relevante, os juros permanecem elevados e a dívida supera 100% do PIB ao longo da próxima década.
Para a Kinea, a principal janela de oportunidade para a aprovação das medidas está entre janeiro de 2027 e meados de 2028, período que historicamente concentrou grande parte dos ajustes fiscais implementados no país após ciclos eleitorais.
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