O engajamento mostrado pela esquerda nos últimos dias mostra que houve uma reação expressiva em relação à liderança de Flávio Bolsonaro no primeiro turno das eleições. Mas alguns números retirados da pesquisa do Instituto Nexus, divulgada ontem, precisam ser estudados com interesse para analisar o que pode ocorrer em 25 de outubro (sempre lembrando que foi esse instituto que mais errou a projeção de votos para o candidato do PL).
O primeiro ponto tem a ver com a estratégia adotada pelo PT para tentar virar o jogo, que é a de fazer com que os eleitores que não compareceram às urnas no dia 4 o façam daqui a dois domingos. Em tese, isso faz sentido. A lógica é simples: em meio à polarização, seria quase impossível induzir o eleitor de Flávio a virar a casaca e apertar o número do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na urna eletrônica. Mas fazer o eleitor faltoso comparecer e votar em Lula seria bem mais fácil.
Ocorre que Flávio tem liderança até neste grupo (o da abstenção). A pesquisa Nexus mostra que o candidato do PL tem 49% das intenções de voto entre aqueles que não compareceram às urnas no dia 4, enquanto Lula possui 41%. Quando olhamos o espólio dos sufrágios dos candidatos que não passaram ao segundo turno, a coisa também não parece promissora para o PT.
Dos eleitores de Ronaldo Caiado, 55% vão votar em Flávio, enquanto 27% escolherão Lula; os apoiadores de Augusto Cury estão mais divididos, com 43% para Flávio e 41% para Lula; os de Renan Santos também tiveram uma divisão parecida (37% para o nome do PL e 30% para o do PT). Já 80% dos apoiadores de Romeu Zema votarão em Flávio e nenhum afirmou que apoiará Lula.
Um dado interessante é a expectativa de vitória. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, 95% acreditam que ele vá vencer as eleições. Entre os de Lula, o índice é significativamente menor: 75%. Ou seja, a confiança dos petistas foi bastante abalada com a derrota no primeiro turno; daí a preocupação do PT em lotar a avenida Paulista no último domingo, para evitar que a militância deixe de votar no dia 25.
Um outro dado chama a atenção: o brasileiro parece estar se acomodando à polarização política. No primeiro turno, por exemplo, 43% dos eleitores se diziam cansados com este fenômeno. Agora, são apenas 38%. O detalhe interessante é que 23% dos entrevistados acreditam que não existe polarização política, em comparação aos 21% que declararam a mesma coisa durante a primeira etapa do pleito.
Somados, os números desenham uma aritmética ingrata para o PT. A estratégia de mobilizar os faltosos esbarra no fato de que Flávio também lidera entre eles; o espólio dos candidatos derrotados pende para o lado do PL; e a militância petista chega à reta final com menos convicção do que a adversária. Nada disso, contudo, significa que a eleição esteja decidida. Se os dados dessa pesquisa estiverem minimamente corretos, Lula precisa de votos que, hoje, simplesmente não parecem estar disponíveis. E a acomodação do eleitor à polarização joga contra quem precisa virar o jogo: quanto mais as trincheiras se consolidam, menos espaço sobra para conquistar quem ainda está nas fronteiras dos territórios ideológicos.