O recente rali das ações de varejo no Brasil foi impulsionado muito mais pela redução da percepção de risco político e macroeconômico do que por uma melhora efetiva nos fundamentos das empresas, segundo relatório do BTG Pactual. O banco destaca que, após o primeiro turno das eleições, o setor acumulou forte valorização, refletindo principalmente uma redução do custo de capital exigido pelos investidores.
Na avaliação do banco, a recuperação do setor ainda pode ter novos capítulos. Embora a primeira fase da alta tenha sido puxada pela reprecificação dos ativos, uma eventual continuidade da queda dos juros pode gerar benefícios diretos sobre os resultados de empresas mais alavancadas e, posteriormente, estimular o consumo por meio da expansão do crédito.
O relatório ressalta, porém, que o cenário atual é diferente de ciclos anteriores. As famílias brasileiras seguem com níveis elevados de endividamento, o que pode fazer com que parte dos ganhos proporcionados por juros menores seja direcionada à redução de dívidas, e não ao consumo imediato. O banco estima que o endividamento das famílias está próximo de 49,8% da renda disponível.
Outro ponto destacado é a transformação estrutural do varejo brasileiro nos últimos anos. O comércio eletrônico ganhou relevância de forma significativa, com o mercado passando de cerca de R$ 65 bilhões em 2016 para aproximadamente R$ 390 bilhões em 2025. A participação das vendas online no varejo também avançou, enquanto grandes plataformas digitais ampliaram sua presença e competitividade.
Nesse contexto, o BTG Pactual avalia que o setor continua sensível ao ciclo de juros, mas alerta que os múltiplos históricos de valuation não devem ser usados como referência automática para o próximo ciclo de crescimento. Segundo o relatório, o ambiente competitivo se tornou mais intenso e exige maior diferenciação entre as companhias.
O banco também identificou impactos distintos de uma eventual redução da Selic sobre os lucros das empresas. Entre as companhias analisadas, Magazine Luiza e Assaí aparecem entre as mais sensíveis à queda dos juros, enquanto outros grupos do setor tendem a registrar efeitos mais moderados.
Para os analistas, a combinação de menor percepção de risco, redução do custo de capital, possível afrouxamento monetário e melhora gradual das condições de crédito ainda pode sustentar novas oportunidades para o varejo brasileiro nos próximos anos.
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