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Kassab ainda pode ser considerado um grande articulador político?

Aluizio Falcão Filho
7 de outubro de 2026

Passado o primeiro turno, contabiliza-se quem ganhou e quem perdeu no pleito. Entre os dirigentes partidários, Valdemar da Costa Neto é o grande vencedor. Do outro lado, talvez o maior perdedor seja o presidente do PSD, Gilberto Kassab. O partido de Kassab perdeu sete senadores e quatro deputados, além de ter ficado apenas em quinto lugar na disputa presidencial. Diante disso, o ex-prefeito de São Paulo ainda pode ser considerado um grande articulador político?

Obviamente, decisões erradas em uma eleição não definem permanentemente o perfil de um cacique político. Mas, desta vez, Kassab não percebeu os sinais de mudança do eleitorado e fez apostas erradas. Ao escolher Ronaldo Caiado como candidato à presidência, criou uma espécie de neutralidade velada, de olho no segundo turno. Muitos acreditavam, no entanto, que sua intenção original seria a de apoiar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Um indício disso é uma declaração dada em agosto, quando vaticinou que Flávio Bolsonaro tinha “chance zero” de vencer as eleições de 2026. Essa frase, junto a sinais enviesados emitidos durante a campanha (na qual ele foi vice de Caiado), fez com que o chefão do PSD queimasse seu filme junto ao núcleo duro de Flávio.

Em sua defesa, Kassab diz que seu candidato sempre foi Tarcísio de Freitas. E, quando o governador paulista se retirou da disputa, ele avançou em direção a um nome do próprio partido. No entanto, as relações entre ele e Tarcísio não estavam exatamente uma Brastemp desde o final do ano passado. Portanto, desconfia-se que o verdadeiro propósito de Kassab era se manter neutro para aderir (discretamente) a Lula no segundo turno.

Caso a vitória de Flávio seja confirmada no segundo turno, o PSD terá dificuldades para se aproximar do governo, a exemplo do que fez nos últimos mandatos. Há duas razões para isso. Em primeiro lugar, o PL cresceu muito no Congresso, passando de 99 cadeiras na Câmara para 121 (no Senado, dobrou sua bancada, chegando a 28 assentos), o que dá à sigla mais cacife para negociar apoio com outras agremiações. Além disso, há membros na equipe de Flávio que preferem se vingar de Kassab a se aliar a ele.

Kassab sempre foi visto como um grande operador partidário, especialmente depois das eleições de 2024. Naquele ano, o PSD saltou de 657 prefeituras em para 891, o maior crescimento entre todas as legendas. Isso fez do partido o maior do país em número de prefeitos, à frente de MDB, PL e Republicanos (esses municípios conquistados abrigam 37,3 milhões de brasileiros).

Diante disso, podemos concluir que Kassab é um excelente construtor de partido, mas talvez tenha deixado de ser um bom leitor do cenário eleitoral. Montar a maior máquina municipal do país exige paciência, troca de favores e conhecimento de prefeito a prefeito, terreno em que ele não tem rival. Já antecipar para onde vai um eleitorado polarizado exige outro tipo de sensibilidade. Foi aqui que ele errou duas vezes no mesmo ano: ao supor que o antipetismo caberia numa candidatura de centro-direita sem o sobrenome Bolsonaro e ao decretar em agosto que Flávio não tinha chance alguma.

Suas 891 prefeituras continuam lá e o PSD seguirá sendo procurado por quem precisa de palanque municipal em 2028. Mas a eleição de domingo mostrou que prefeitos não necessariamente transferem votos presidenciais e que um cacique sem bancada expressiva no Congresso (e sem acesso ao vencedor) perde seu cacife nacional. Kassab tem quatro anos para reconstruir a reputação de oráculo. O problema é que, nesse intervalo, quem vai distribuir cargos deve ser precisamente o grupo que ele desprezou.

Contudo, se Lula conseguir virar o jogo e ganhar o segundo turno (algo que hoje parece ser improvável), esqueçam todas as palavras escritas acima. E vamos eleger Kassab como o maior gênio da política brasileira.

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