A polarização política está atingindo seu patamar máximo em 2026, mas o segundo turno será decidido pelos eleitores independentes, a mesma minoria que selou o resultado de 2022. Os candidatos, assim, deveriam buscar posições comedidas para sensibilizar esse eleitor de centro. O que deveremos ver, no entanto, será uma radicalização dos dois finalistas eleitorais, Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva.
Uma prévia se viu nos discursos feitos pelos candidatos após a oficialização dos resultados das urnas. Os ataques serão virulentos e sem apresentação de provas. Um exemplo disso foi o que disse o presidente da República anteontem sobre o oponente. “É uma biografia tenebrosa, coligações tenebrosas, com suspeitas gravíssimas com relação com milicianos, com relação com o crime organizado, com relação com assassinatos no Rio de Janeiro. Tudo isso vai ficar claro. E também com a participação da criação do Banco Master, que resultou não apenas na maior corrupção desse país, mas também na maior orgia envolvendo políticos e autoridades desse país”, afirmou Lula.
Tudo isso, porém, já foi explorado no primeiro turno. Mas Flávio Bolsonaro cresceu e liderou as apurações. No fundo, Lula sabe que não vai conseguir atrair o eleitor de centro. Por isso, repete sua estratégia de ataques e tenta atrair para as urnas do dia 25 o eleitor que se absteve das urnas na primeira etapa do pleito (33 milhões de pessoas).
Como toda ação tem uma reação, é de se esperar que o PL responda na mesma moeda e haja uma escalada de agressões verbais. Isso poderia provocar um descontentamento ainda maior por parte dos independentes. Ocorre que a rejeição a Lula, neste grupo, é maior do que a de Flávio. Ataques mútuos, assim, podem deixar o placar no mesmo patamar de antes.
Para reverter o resultado negativo, algo que nunca ocorreu antes neste país, o presidente terá de reduzir a margem que Flávio obteve nos estados do Sudeste. Para entender essa lógica, é bom recapitular o que houve nos primeiros turnos de 2022 e de 2026.
Em 2022, Lula abriu no Nordeste uma vantagem de cerca de 12,3 milhões de votos e empatou no Norte, enquanto Jair Bolsonaro venceu no Sudeste por apenas 2,2 milhões, no Sul por 2,8 milhões e no Centro-Oeste por 1,8 milhão. A soma dava ao petista 6,2 milhões de votos de dianteira nacional. Quatro anos depois, o Nordeste continua sendo dele, mas a vantagem encolheu para algo próximo de 11 milhões. Ao mesmo tempo, a margem da direita no Sudeste triplicou, chegando a cerca de 6,2 milhões; além disso, a oposição cresceu no Sul, para aproximadamente 4,2 milhões, e no Centro-Oeste, para 2,5 milhões. O Norte, praticamente empatado quatro anos atrás, virou para a direita por volta de 500.000 votos, com Flávio levando Acre, Roraima, Rondônia e Tocantins.
Percebe-se, portanto, que Lula recuou nas cinco regiões. Além disso, pode-se dizer que o Sudeste decidiu a eleição sozinho: os 4 milhões de votos de variação ali superam a soma de tudo o que mudou no Sul, no Centro-Oeste e no Norte. O colchão nordestino, que em 2022 cobria com folga a derrota nas demais regiões, encolheu 10% enquanto o buraco do Sudeste triplicou. É por isso que a reversão da desvantagem de 2,2 milhões no segundo turno depende de uma recuperação de Lula em São Paulo e em Minas Gerais, estados nos quais os candidatos de direita venceram o governo em primeiro turno. Tarefa quase impossível.
Se continuar a jogar parado, Flávio tem tudo para vencer em 25 de outubro.