O senador Flávio Bolsonaro conseguiu o que parecia ser, seis meses atrás, impossível: venceu o primeiro turno das eleições, com uma vantagem superior a 2,6 milhões de votos em relação ao adversário, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Como se sabe, os vencedores da primeira etapa das eleições brasileiras triunfam no pleito final. Isso, pelo menos, ocorre desde 1989. A história se repetirá?
Há grandes chances de isso acontecer, especialmente porque, nos últimos dias, houve uma onda favorável ao candidato do PL, que desidratou a votação esperada dos demais nomes da oposição, como Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema. Neste sentido, as pesquisas eleitorais falharam miseravelmente. Quase todas vaticinaram uma vitória apertada de Lula no primeiro turno, o que não ocorreu.
Desde que se sagrou presidente pela primeira vez, o candidato do PT sempre passou ao segundo turno à frente de seus adversários. Será a primeira vez que ele começa essa fase atrás do oponente – e, em seu discurso após o resultado das urnas, mostrou que fará uma campanha agressiva e focada em tentar reduzir a abstenção dos eleitores, trazendo votos em seu favor entre os que se ausentaram ontem.
Mas, aparentemente, o PT não compreendeu as razões que fizeram cerca de 33 milhões de pessoas não comparecerem às urnas. Em vez de entender esse fenômeno, Lula parece centrar forças em duas estratégias. Uma é falar mal de Flávio. O problema é que o senador fluminense angariou boa parte de seus votos durante os dias em que sofreu inúmeros ataques e foi personagem de várias denúncias. Parece que o tal efeito teflon, segundo o qual um determinado político não sofre com denúncias feitas contra ele, ocorre na campanha do PL.
A outra linha explorada por Lula é ampliar seu pacote de bondades, a começar pela distribuição gratuita de canetas emagrecedoras. Mas, de novo, ele fez esse mesmo tipo de coisa nas últimas semanas, com direito a medidas populistas como o fim das casas de apostas online. Enquanto criava novas medidas para aumentar sua popularidade, no entanto, seu oponente crescia junto ao eleitorado.
O nó do problema, assim, parece estar na desaprovação de Lula. Há, por um lado, uma fadiga de material provocada por muitos anos de PT no poder. De outro, temos uma desconexão entre Lula e os eleitores, com direito a não entender direito o que os brasileiros querem. Temos 24 anos entre a primeira vitória do presidente e a presente eleição. Mas o jeito de Lula se dirigir ao eleitorado atual é praticamente igual ao que fazia em 2002. A sociedade, neste meio-tempo, mudou. Mas Lula, não.
Ao ser eleito em 2022, Lula venceu por uma margem pequena. Mas considerou esse triunfo como uma consagração sem precedentes, promovida por toda a sociedade. Quando conseguiu recuperar parte de sua popularidade, durante o tarifaço americano, achou que estava reeleito e subestimou o potencial de Flávio Bolsonaro quando ele foi ungido candidato. Essa percepção foi reforçada quando eclodiu o caso Dark Horse, época em que o nome do PL encolheu nas pesquisas. Quando acordou para a competitividade da oposição, começou a soltar medidas populistas como uma tentativa de reverter a onda direitista. Ontem, vimos que isso não foi suficiente. Por que, então, o presidente quer repetir um estratagema que não funcionou até o último fim de semana?
A situação de Lula é delicada e as maiores chances estão ao lado de seu oponente. Para reverter esse quadro, ele aposta em novas denúncias e mais populismo. Ou seja, nada de novo. Em 2022, muitos analistas disseram que não foi Lula que ganhou e sim que Jair Bolsonaro que perdeu. Talvez, em 2026, ocorra algo semelhante: uma vitória oposicionista provocada principalmente por uma sucessão infindável de erros cometidos pelo atual presidente.