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Se Flávio estivesse mal nas pesquisas, Lula teria proibido as bets?

Aluizio Falcão Filho
28 de setembro de 2026

A grande imprensa publica reportagens sobre vícios em bets pelo menos desde 2024. Além disso, desde o ano passado, jornais e portais apresentam dados do volume de recursos que deixaram o consumo e os investimentos em direção às apostas online. De todas as publicações, uma chama a atenção em especial: a reportagem sobre a pesquisa “A saúde dos brasileiros em jogo”, realizado pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúdes, publicada em dezembro de 2025. Este ensaio mostra que as bets provocam perdas econômicas e sociais ao país estimadas em R$ 38,8 bilhões ao ano. Quem publicou essa matéria? A Agência Brasil, o órgão oficial de comunicação do governo brasileiro.

Isso quer dizer que os problemas sociais e econômicos do vício em apostas são de pleno conhecimento dos cidadãos há pelo menos dois anos — inclusive do governo. Por que, então, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva resolveu decretar o fim deste mercado somente agora?

A resposta é muito simples: por causa do desespero provocado pela possibilidade de perder as eleições. Com o senador Flávio Bolsonaro nos calcanhares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas eleitorais, o governo federal está dando tiro para tudo o que é lado com o propósito de criar factoides e virar a maré a seu favor.

Enquanto Lula liderava as enquetes, meses atrás, ninguém no Planalto falava em programa Desenrola 2.0 ou 3.0, reajuste do Bolsa Família ou fim das bets. Conforme o candidato oposicionista começou a crescer (até superando numericamente o presidente em algumas enquetes), surgiram ações com forte cunho eleitoral. O. K., Lula não foi o primeiro a fazer isso e nem será o último. Mas toda a vez que isso ocorre, é preciso alertar o eleitorado.

O timing dessas ações, assim, chama a atenção e não deixa nenhuma dúvida que o interesse de Lula é meramente eleitoreiro. Se o vício em bets fosse tão prioritário para o Brasil, por que o governo regulamentou a ação das casas online de apostas no início do mandato? E, caso tivesse se arrependido, por que não decretou o final da jogatina digital antes? Acabar com os cassinos online a duas semanas do primeiro turno mostra que o governo vai fazer de tudo para tentar ganhar as eleições.

Vamos deixar de lado, por um instante, se as apostas são benéficas ou não para a população brasileira. No lugar deste debate, que tal falar sobre insegurança jurídica? Pode-se falar mal das apostas, incluindo eventuais ligações com a ilegalidade e lavagem de dinheiro. Mas muitas empresas seguiram as regras publicadas pelas autoridades e pagaram o pedágio exigido para explorar esse mercado. E agora foram proibidas de atuar. Isso mostra para muitos investidores estrangeiros que vieram ao Brasil para explorar esse universo que nosso país não respeita as leis em vigor. Basta uma crise política e tudo pode mudar.

O custo dessa insegurança será cobrado de outras formas. As empresas pagaram R$ 30 milhões de outorga cada uma por licenças de cinco anos, recolheram cerca de R$ 8,8 bilhões em tributos apenas entre janeiro e novembro do ano passado e cumpriram exigências sucessivas de compliance, bloqueio de beneficiários do Bolsa Família e migração obrigatória para os domínios finalizados em “.bet.br”. Agora descobrem que a validade dos contratos com o Estado brasileiro dependem do que ocorre com o vai e vem das pesquisas eleitorais.

A conta virá em arbitragens e ações de indenização, além da desconfiança de investidores que olham para o Brasil em setores igualmente dependentes de autorização estatal, como energia, telecomunicações, saneamento e concessões rodoviárias. Nenhum deles precisa gostar de bets para entender o recado dado por Lula.

Havia caminhos que não exigiam medida provisória em véspera de eleição, como por exemplo, restringir a publicidade nos moldes britânicos, proibindo o uso de influenciadores com apelo juvenil e a associação entre aposta e solução financeira para os cidadãos. Ou impor limites de depósito por CPF e intervalos obrigatórios entre rodadas, que atacam o apostador compulsivo sem fechar o mercado. O governo, no entanto, escolheu o gesto que rende manchetes por duas semanas. O problema de saúde pública que ele diz combater continuará lá após as eleições, provavelmente com menor fiscalização e menos dinheiro para tratá-lo.

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