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A importância do jornalismo no registro da história

Aluizio Falcão Filho
18 de outubro de 2026

Philip Graham (imagem), publisher do Washington Post entre 1946 e 1963, disse em um discurso para correspondentes que a “notícia é o primeiro rascunho da história”. De fato, os repórteres registram os primeiros passos daquilo que será trabalhado a fundo, no futuro, pelos historiadores. Mas isso não quer dizer que o trabalho jornalístico seja necessariamente raso ou não tenha profundidade.

O fato é que a imprensa, como a conhecemos, revolucionou a história. Quando lemos sobre a Grande Crise de 1929, a Segunda Guerra Mundial ou a Guerra Fria, temos acesso a informações que só seriam possíveis com as reportagens publicadas no clamor dos acontecimentos.

O mesmo vale para figuras que, daqui a alguns séculos, serão históricas. Imagine, por exemplo, o que os cidadãos do Século 23 poderão saber sobre John Lennon, Donald Trump e o Papa João Paulo II. Graças ao trabalho empreendido por jornalistas, a coleta de informações será muito mais fácil para quem deseja discorrer sobre esses personagens.

Será um trabalho bem mais simples do que aquele realizado pelos historiadores que pesquisaram a vida de Wolfgang Amadeus Mozart, Luís XV ou Papa Leão I. Como não havia periódicos naquele tempo, a fonte de informações era dispersa: correspondências, atas, diários, sermões, registros administrativos e documentos oficiais. Nada, porém, se compara à quantidade de informações que veio a público desde o Século 20, incluindo fotografias, filmes e vídeos.

Os historiadores de amanhã, no entanto, enfrentarão uma dificuldade a mais: as redes sociais surgiram para trazer um pouco de confusão a esse quadro, pois neste universo há pelo menos duas versões para cada fato. O grande desafio, assim, será separar o joio do trigo e saber onde reside a verdade (geralmente, no meio termo entre os extremos).

Diferente dos jornais impressos, que ficam arquivados em bibliotecas para consulta futura, boa parte do conteúdo publicado em redes sociais desaparece com o tempo: perfis são apagados, plataformas fecham, algoritmos sepultam publicações antigas sob camadas de conteúdo novo. Some-se a isso o volume descomunal de informação gerada a cada segundo, produzida por milhões de pessoas sem qualquer compromisso editorial. O resultado é um material imenso, de difícil organização e verificação. Bots, contas falsas e campanhas coordenadas de desinformação tornarão ainda mais complexo esse trabalho de garimpagem, exigindo dos historiadores do futuro ferramentas de checagem que sequer existem hoje.

Curiosamente, o excesso de informação pode se tornar um obstáculo tão grande quanto a escassez enfrentada pelos estudiosos da Antiguidade. Enquanto os historiadores de Mozart, Luís XV e Papa Leão I precisaram reconstruir o passado a partir de fragmentos escassos, os do futuro terão de peneirar oceanos de dados para encontrar o que realmente importa. Em ambos os casos, o método permanece o mesmo: cruzar fontes, avaliar credibilidade e buscar, com paciência, o ponto em que os relatos convergem.

O filtro feito pelos jornalistas – vá lá, o primeiro rascunho – passou a ser algo importantíssimo, sem o qual dificilmente os historiadores terão condições de mostrar a realidade dos fatos de nosso presente. Ou melhor, do passado de quem ainda está por nascer. Qual é o desafio? Superar as desconfianças que surgem aqui e ali, como as suspeitas acesas pelos recentes vazamentos do Caso Banco Master. Alguns leitores já não acreditam mais na imprensa — e outros duvidam de muito do que é publicado.

Como reverter esse ceticismo? Com trabalho, muito trabalho. Ainda existem jornalistas comprometidos com a verdade e decididos a escrever o primeiro rascunho da história.

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