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A Coreia agora quer construir o futuro da beleza

Simone Sancho,
para MR
21 de setembro de 2026
O acordo entre L’Oréal e Cosmax revela por que a próxima disputa da indústria acontece antes de o produto chegar à prateleira

Durante anos, fomos à Coreia do Sul procurar o próximo produto que faria sucesso no Ocidente. Uma máscara diferente, uma textura surpreendente, um batom que parecia ter sido pensado cinco minutos antes de virar febre. Voltávamos com a mala cheia e uma pergunta bastante previsível: quanto tempo até alguém copiar?

Talvez estejamos fazendo a pergunta errada.

O anúncio que vai além do produto…

Em setembro, L’Oréal e Cosmax assinaram um memorando de entendimento para desenvolver inovações em beleza. A notícia poderia entrar naquela pasta mental chamada “grande empresa faz parceria com fabricante asiático”. Seria uma leitura cômoda. E superficial.

O comunicado descreve pesquisa conjunta de produtos inspirados na K-Beauty para mercados globais, de matérias-primas e ingredientes ativos, além de novas assinaturas sensoriais e formatos. O acordo é um memorando de entendimento, portanto não equivale a produtos lançados nem revela condições comerciais ou divisão de propriedade intelectual. Ainda assim, a escolha do parceiro e do escopo diz muito sobre a direção da indústria.

A fábrica invisível das tendências

A Cosmax opera no modelo ODM: participa da pesquisa, do desenvolvimento e da fabricação de cosméticos para outras marcas. É parte da infraestrutura que transforma uma ideia em algo que pode ser formulado, testado, produzido e vendido. Sua contribuição, portanto, começa bem antes de uma embalagem chegar ao varejo.

A L’Oréal poderia simplesmente observar os produtos coreanos que viralizam e responder com suas próprias versões. Ao se aproximar de uma empresa que participa do processo de criação, sinaliza interesse na engrenagem por trás da velocidade coreana. Essa é a minha leitura estratégica do anúncio, não uma declaração das duas companhias.

O ponto é relevante porque tendências são visíveis. Infraestrutura quase nunca é. Vemos o lip tint no feed, mas não enxergamos a rede de pesquisa, formulação, testes, fornecedores e decisões que permitiu lançá-lo enquanto outra empresa ainda discutia o briefing.

Velocidade também é competência

Na indústria de beleza, inovação costuma aparecer em apresentações como sinônimo de um novo ativo ou de uma patente. Ambas importam. Mas existe uma competência menos fotogênica: perceber um comportamento, traduzi-lo em produto, testar a resposta do consumidor e ajustar a rota antes que o interesse esfrie.

A Coreia ficou conhecida por criar formatos e rituais que circulam pelo mundo. A pergunta mais interessante agora é como seu ecossistema consegue repetir esse processo. Não há bola de cristal em Seoul. Há uma combinação de cultura de consumo, capacidade industrial, pesquisa e uma organização que consegue reagir depressa. A boa notícia para quem adora a expressão “vamos acompanhar a tendência” é que acompanhar já pode ser tarde.

A experiência entra no laboratório

Uma das frentes anunciadas merece atenção especial: a inovação sensorial. Textura, aplicação, acabamento, aroma e gesto não são acessórios de uma fórmula. Participam da forma como o consumidor entende eficácia, cria um ritual e decide voltar a usar o produto.

Quem trabalha com beleza sabe que a mesma promessa pode resultar em experiências completamente diferentes. Um batom pode ser só cor ou tornar-se escolha de acabamento, aroma e embalagem. O valor aparece também na maneira como o produto é vivido. Não por acaso, sensorialidade e formatos estão no mesmo acordo que ingredientes e desenvolvimento global.

A pergunta que fica para o Brasil

Nós temos biodiversidade, indústria, criatividade e um consumidor que sabe exatamente o que quer, mesmo quando não encontra palavras para descrever. Ainda assim, muitas conversas sobre inovação por aqui começam e terminam na próxima tendência importada. Qual ingrediente está bombando? Qual embalagem precisamos reproduzir? Qual novidade devemos trazer da Coreia?

Eu faria outra pergunta: que infraestrutura estamos construindo para transformar o comportamento brasileiro em inovação capaz de viajar? Isso exige conectar quem observa o consumidor a quem pesquisa, formula, fabrica, testa e distribui. Sem essa ponte, nossa criatividade continuará aparecendo muito bem no discurso e menos do que poderia na propriedade dos produtos.

O acordo entre L’Oréal e Cosmax não prova que uma empresa controlará o futuro da beleza. Um memorando ainda precisa virar trabalho concreto. Mas já ilumina onde parte da disputa está sendo travada: na capacidade de criar continuamente, e não apenas de escolher qual sucesso alheio colocar na próxima prateleira.

Durante anos, fomos à Coreia procurar o próximo produto. Talvez a visita mais valiosa agora seja para entender quem constrói o sistema capaz de criar o próximo, e o seguinte.

Simone Sancho é fundadora e CEO da startup de beleza Belong Be

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