Li na semana passada uma coluna de jornal que, pela milésima vez, chama de apáticos os jovens de hoje, a famosa Geração Z. Como exemplo principal dessa letargia, diz o autor, estaria a falta de engajamento nos principais problemas do mundo atual, como as questões envolvendo o clima e o meio ambiente.
Talvez o autor tenha sido um jovem com espírito maduro, como foi o falecido deputado Ulysses Guimarães. Se alguém tiver dúvidas sobre isso, sugiro uma pesquisa na Internet para verificar uma foto que registrou o sr. Diretas aos 22 anos. É possível ver na fotografia que dentro daquele corpo jovem vivia um senhor de oitenta anos de idade.
E por que especulo essa possibilidade? Porque a maioria dos jovens nunca se mostrou muito preocupada com os problemas do mundo. Trata-se de uma idade na qual há um descobrimento atrás do outro, quando sua vida sofre um bombardeio de experiências novas. O rito de passagem da adolescência para a juventude é muito rápido e nos oferece um universo novo e vasto a ser explorado.
A maior parte da juventude, assim, acaba preferindo priorizar sua própria vida, deixando em segundo plano pensamentos mais profundos sobre o futuro da humanidade. Talvez a mocidade, assim, não seja necessariamente apática e sim mais centrada em si mesma, preocupada com o hedonismo e com sua independência.
Talvez todas as gerações jovens da segunda metade do Século 20 para frente tenham tido esse comportamento, com exceção dos hippies dos anos 1960. Mas boa parte desses protestos desta fase se deu por conta dos jovens que desejavam um mundo sem as regras de comportamento dos mais conservadores.
Uma vez conquistado o espaço da juventude, a década de 1970 já mostrou uma geração desligada de grandes discussões e com foco em seus mundos particulares. Não é à toa, portanto, que algumas das teses levantadas sobre alienação e egoísmo podem ser encontradas no ensaio “The Me Decade and the Third Great Awakening”, publicado na revista New York em 1976 e de autoria do escritor Tom Wolfe.
O texto descreve a virada do ativismo coletivo dos anos 1960 para a obsessão com o autoaperfeiçoamento e a exploração do eu: terapias de grupo, meditação, dietas, seitas e culto ao corpo. Wolfe interpretou esse movimento como um fenômeno quase religioso (daí a referência ao Terceiro Grande Despertar), comparando-o aos surtos de fervor evangélico da história americana. A tese central do escritor era que a prosperidade do pós-guerra havia democratizado um privilégio antes restrito à aristocracia, o de dedicar a vida ao refinamento da própria personalidade. Isso vale também para a geração atual.
No fundo, o que o colunista quarentão pode estar fazendo é justamente repisar o velho adágio de que “bom mesmo era viver na minha época”. Bem, sou uma testemunha ocular do tempo em que esse autor foi jovem e posso garantir que a diferença entre a geração dele e a atual é pequena.
Provavelmente o tal articulista deve ter sido de fato um jovem diferente, daqueles que aos dezoito anos já liam sobre desarmamento nuclear enquanto os colegas decidiam em que festa iriam no sábado. Quem viveu assim, porém, pode confundir a própria trajetória com a da geração inteira. Ele não está comparando a Geração Z com a juventude dos anos 1980. Está comparando a Geração Z consigo mesmo aos vinte anos – e, nessa disputa, ninguém ganha. Se tivesse olhado com atenção para os colegas de sala naquela época, talvez tivesse visto o mesmo hedonismo, a mesma indiferença aos grandes temas e a mesma pressa de viver que ele hoje atribui aos jovens de agora. A diferença entre as gerações continua sendo mínima. A diferença entre ele, o colunista, e seus contemporâneos é que era grande demais vinte anos atrás.
Uma resposta
Concordo contigo Aluizio, me lembro de jovens envolvidos em algumas situações, mas sempre pontuais. Hippies, citado no seu artigo, estudantes em Paris, 1968, Guerra do Vietnã, década de 1960, diretas já, década de 1980.