Conforme fico mais velho, percebo que sou mais tolerante com as pessoas e me torno alguém mais paciente com coisas que me irritavam no passado. Em contrapartida, outras situações que me deixavam incomodado anteriormente, agora me causam exasperação. Uma contrariedade do pior tipo, diga-se: daquelas silenciosas, que tentamos disfarçar, deixando o incômodo nos corroer por dentro. Há cinco circunstâncias que me tiram do sério, por exemplo, quando vou a um restaurante.
A primeira é quando estou almoçando com alguém (especialmente minha cara-metade) e alguém se senta sozinho na mesa ao lado. Nada contra aqueles que desejam almoçar ou jantar sozinhos. Mas me irrita o fato de que aquele vizinho de mesa vai ouvir tudo o que eu disser. Sei que isso é uma birra bobinha, mas – acredite – já tentei ignorar esse tipo de situação. Não adianta: é mais forte que eu. Há uma variação desse tema: uma mesa vizinha com gente que fala alto demais. Ou quem fica com o celular no modo viva-voz em volume alto. Todos insuportáveis.
Outra situação que me irrita é a propensão que os garçons têm de completar o copo ou a taça com bebidas o tempo todo. Quero controlar o meu próprio ritmo de bebida (alcóolica ou não) e me incomoda ter alguém me acelerando a cada cinco minutos.
Também tenho pouca (ou nenhuma) paciência com os atendentes que não prestam atenção: uma coca apenas com gelo vem sem pedras e com fatia de limão; um abacaxi sem raspas virá com raspas; um picadinho sem banana milanesa virá com dois exemplares da fruta.
E o volume da música ambiente? Em muitos restaurantes, o som parece calibrado para uma balada, não para uma mesa de duas ou quatro pessoas tentando conversar. Você acaba tendo que se inclinar para frente e quase gritar para se comunicar com os outros.
E quando pedimos a conta e há uma demora desproporcional para que a nota chegue? Parece que o estabelecimento deseja prolongar a sua permanência na mesa a qualquer custo, mesmo depois que o assunto já se esgotou e todo mundo só quer ir embora.
Nenhuma dessas cinco implicâncias tem a ver, de fato, com os restaurantes que frequento. Mas essas situações fogem ao controle de quem apenas deseja comer bem e conversar em paz. Envelhecer, percebo agora, não é ficar mais tolerante com tudo. É, isto sim, aprender a escolher, com mais precisão, as birras bobinhas que ainda valem a pena guardar para dentro, mesmo sabendo que dificilmente vou ter coragem de reclamar delas em voz alta para o garçom. Por quê? Porque são fricotes sem importância. Irritam. Mas geralmente não valem uma reclamação. A exceção fica para as vozes altas que vêm da mesa vizinha, da boca das pessoas ou do alto-falante de um celular. Em relação a isso, não há paciência que aguente.
Uma resposta
Pessoas falando alto e viva voz também me incomodam bastante. Viva voz muito mais.