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Crise fiscal? Para o PT, isso é “fake news”

Aluizio Falcão Filho
2 de setembro de 2026

O coordenador do programa de governo do comitê de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Sérgio Gabrielli, disse à “Folha de S. Paulo” que as afirmações de que o país vive uma crise fiscal são “fake news”. “O desemprego é baixo, o IPCA-15 aponta para queda, não temos problemas de balança de pagamentos, nossas reservas internacionais são firmes e a taxa de câmbio está controlada”, argumentou.

Gabrielli cita dados verdadeiros. Mas nenhum desses indicadores mede diretamente os gastos públicos, a trajetória da dívida bruta ou o ritmo das despesas obrigatórias. É como negar o endividamento de uma empresa citando que suas vendas vão bem: pode ser verdade, mas não faz a dívida em si desaparecer.

Dias atrás, em sabatina no Jornal Nacional, Lula afirmou que a dívida pública “não preocupa” e disse ter herdado, em 2023, um “déficit fiscal de 2,8%”, prometendo superávit primário de 0,1% neste ano. “Se tem alguém nesse país que tem responsabilidade fiscal, sou eu”.

Os números, porém, desmontam a afirmação sobre a tal herança maldita: segundo dados oficiais, 2022, último ano do governo Bolsonaro, fechou com superávit primário de R$ 54,9 bilhões, equivalente a 0,6% do PIB, não com déficit. Já a promessa de superávit de 0,1% para 2026 contradiz a própria projeção do mercado apurada pelo Ministério da Fazenda uma semana antes da entrevista, que aponta déficit de R$ 59,1 bilhões, cerca de 0,5% do PIB.

Voltando a Gabrielli. Ele também afirmou que a trajetória da dívida pública está longe de ser explosiva. Não é o que os dados do próprio governo mostram. O resultado acumulado até julho nas contas públicas é deficitário em R$ 81,3 bilhões, alta de 15,6% em valores nominais sobre o mesmo período de 2025.

Esse padrão de déficits recorrentes é o que empurra a dívida pública para cima, independentemente dos juros. Desde 2023, primeiro ano do atual mandato, o resultado primário nunca fechou positivo: foram R$ 230,5 bilhões negativos em 2023 (2,1% do PIB), R$ 43 bilhões em 2024 (0,36% do PIB) e R$ 61,7 bilhões em 2025 (0,48% do PIB). Como consequência direta, a dívida bruta do governo geral subiu mais de 10 pontos percentuais desde janeiro de 2023, atingindo 81,9% do PIB em 2026, o maior patamar da série histórica recente. Muitos economistas apostam que esse índice será de 100% já em 2027.

Esta, portanto, é uma situação gravíssima, que o PT – Lula e Gabrielli, em especial – minimiza.

Dívida em disparada significa juros altos por mais tempo, pois o mercado exige prêmio de risco maior para financiar um país que não demonstra capacidade de estabilizar suas próprias contas. Isso encarece o crédito para empresas e famílias, trava financiamento habitacional, sufoca o consumidor e reduz o investimento produtivo justamente quando o país mais precisa dele para crescer. Com o caixa sufocado pelo pagamento de juros, há menos espaço para políticas públicas de verdade, como ações para melhorar saúde, educação e segurança (8% do PIB, hoje, são destinados só para o serviço da dívida).

Neste contexto, ficamos expostos a fugas de capital e desvalorização cambial ao primeiro sinal de desconfiança global, uma vulnerabilidade que nenhuma reserva internacional “firme” resolve sozinha. Especialmente se a origem do problema, o descontrole fiscal doméstico, continuar sendo tratado como “fake news” por quem deveria estar corrigindo o rumo. Gabrielli pode repetir que não há crise. Os números do próprio Tesouro dizem o contrário e o país inteiro vai pagar a conta dessa negação, com juros mais altos, menos investimento e um Estado cada vez mais pobre para cumprir suas funções mais básicas.

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