Executivos de Nexus, AtlasIntel, Paraná Pesquisas e Ideia avaliam que avanço do escritor dificulta definição no primeiro turno e abstenção pode ser decisiva em eventual disputa entre Lula e Flávio
O avanço de Augusto Cury (Avante) nas pesquisas presidenciais mudou a dinâmica do primeiro turno, mas ainda não foi suficiente para romper a polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) em uma eventual disputa direta. Essa foi uma das principais avaliações do painel “Eleições 2026: Pesquisas e Cenários”, realizado nesta segunda-feira (31) durante o Macro Day do BTG Pactual, com representantes de quatro dos principais institutos de pesquisa do país.
A discussão ocorreu no mesmo dia em que Cury atingiu 11% das intenções de voto na pesquisa BTG/Nexus, nove pontos acima da rodada anterior, enquanto a AtlasIntel apontou o candidato com 7,8%. Marcelo Tokarski, CEO da Nexus/FSB, chamou atenção também para o desempenho espontâneo: segundo ele, Cury saiu de 1% para 8% sem que os entrevistados recebessem previamente a lista de candidatos. Para Tokarski, a exposição no debate da TV Band, a circulação de cortes nas redes sociais e o início da propaganda eleitoral contribuíram para acelerar um movimento que já vinha sendo observado.
“Ele mexeu com a dinâmica um pouco do primeiro turno, principalmente por garantir um segundo turno”, afirmou Tokarski. A mudança, porém, ainda não chegou ao confronto direto entre os favoritos. Segundo ele, parte significativa dos eleitores que migrou de Lula e Flávio para Cury retorna aos dois candidatos em uma simulação de segundo turno, mantendo a disputa tecnicamente empatada.
Andrei Roman, CEO da AtlasIntel, relacionou o fenômeno a uma combinação de fadiga eleitoral e força das redes sociais. Segundo ele, há baixo entusiasmo entre parcelas tanto do eleitorado de Lula quanto do de Flávio, criando espaço para uma candidatura percebida como novidade. Pelos dados do instituto, Cury tem retirado mais votos da direita. “Para cada eleitor do Lula que o Cury ganha, ele ganha dois do Flávio”, afirmou.
Murilo Hidalgo, CEO do Instituto Paraná Pesquisas, avaliou que as próximas rodadas ainda poderão mostrar números favoráveis ao escritor, mas ponderou que a partir daí a candidatura passará por um teste diferente. “As pesquisas da próxima semana ainda serão positivas para ele. E aí, da outra semana, já vai acabar a febre. Ele vai ter que se mostrar preparado, que está capaz para ser presidente”, afirmou.
Cila Schulman, CEO do Ideia Instituto de Pesquisa, também avaliou que a ascensão de Cury não desmonta, por enquanto, a estrutura polarizada da disputa. Para ela, a eleição continua cristalizada principalmente em torno de Lula e Flávio, enquanto o atual presidente enfrenta dificuldades para reproduzir em 2026 a memória econômica positiva que ajudou a sustentar sua volta ao Palácio do Planalto quatro anos atrás.
Além de Cury, os pesquisadores apontaram a abstenção como uma variável potencialmente decisiva no segundo turno. Tokarski destacou que o eleitor de menor renda e escolaridade — grupo no qual Lula costuma ter desempenho superior — historicamente apresenta maior propensão a não comparecer. O problema pode ganhar peso adicional caso eleições para governador em grandes estados sejam resolvidas já no primeiro turno, reduzindo a mobilização regional para voltar às urnas.
Hidalgo classificou a abstenção como um dos grandes “imponderáveis” da eleição e chamou atenção especialmente para estados do Nordeste. Já Roman avaliou que o cenário tende a ser mais desafiador para Lula em um segundo turno, embora Flávio também tenha problemas a resolver no primeiro, sobretudo se Cury continuar avançando entre eleitores de direita.
Gostou do conteúdo? Inscreva-se e receba a newsletter de MONEY REPORT
