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A vida adulta ainda começa para valer aos 30 anos?

Aluizio Falcão Filho
5 de setembro de 2026

Nesta semana, estava relendo a biografia autorizada de Paul McCartney, escrita por Barry Miles, e me deparei com uma reflexão feita pelo ex-Beatle em 1966, quando ele tinha 24 anos e já produzia canções adultas como “Eleanor Rigby”. Nesta passagem, ele dizia que se questionava se ainda estaria fazendo música e tocando em uma banda quando tivesse 30 anos. Essa seria a idade na qual se separaria os jovens dos adultos, um marco temporal que iria representar uma mudança na vida de todos que ultrapassassem essa linha.

Alguns anos depois, em 1971, o cantor e compositor Marcos Valle lançou a música “Com mais de 30”. Essa canção começa com dois versos que mostram o descrédito dos jovens em relação aos mais velhos e endinheirados: “Não confie em ninguém com mais de trinta anos/ Não confie em ninguém com mais de trinta cruzeiros”. Neste momento, curiosamente, Marcos tinha 28 anos e o co-autor, seu irmão Paulo Sérgio, já contava com 31 anos.

Em 1971, a expectativa de vida no Brasil era de 56 anos. Ou seja, 30 anos representava mais ou menos a metade da existência de alguém. Talvez por isso, essa faixa etária era considerada uma espécie de última chamada para quem quisesse ingressar na maturidade.

Hoje, porém, a expectativa de vida do brasileiro é de 76 anos. Ou seja, as três décadas de antes não são iguais às de hoje. Dentro de algum tempo, provavelmente a expectativa de vida será de 80 anos, fazendo de quem completa quatro décadas uma espécie de meio do caminho.

Até os anos 1980, era comum ver jovens com até 29 anos casados e com pelo menos um filho. Hoje, no entanto, isso não é tão corriqueiro. Em 1974, por exemplo, a média de quem contraia matrimônio era de 23 anos para as mulheres e 27 anos para os homens. Hoje, esse índice é bem diferente: 30 para o sexo feminino e 33 para o masculino.

Ou seja, as pessoas estão deixando a casa dos pais mais tarde e demorando mais para assumir responsabilidades familiares. Isso jogou a taxa de maturidade para uma idade mais alta?

Tudo indica que a resposta seja “sim”.

O corpo ou a mente, porém, não estão amadurecendo mais devagar; é que as circunstâncias que antes empurravam alguém para a vida adulta não surgem mais na mesma velocidade. Até os anos 1980, casar e ter filho cedo não era bem uma escolha, era o caminho natural das coisas: as pessoas terminavam os estudos, arranjavam um emprego, casavam e a responsabilidade de sustentar uma família chegava ainda aos vinte e poucos anos.

Hoje, porém, esse roteiro se esticou. A formação leva mais tempo, o mercado exige mais qualificação antes de garantir qualquer estabilidade, morar sozinho ou comprar uma casa ficou mais caro em relação à renda e a decisão de ter filhos passou a disputar espaço com carreira. O efeito dessa combinação de fatores empurrou a vida adulta para depois dos trinta. A maturidade deixou de ser um portão que se atravessa aos 22 anos e virou uma rampa longa, que só termina de fato perto dos 35.

Talvez hoje a reflexão de Paul McCartney devesse mirar a idade de quarenta anos. Aquilo que chamamos de vida adulta foi postergada, junto com o casamento e o primeiro filho. Os jovens de hoje não amadurecem mais devagar por natureza; eles têm, isso sim, menos motivo e menos pressa para assumir aos 30 anos o que os pais assumiam aos 22.

A responsabilidade antecipada criava uma pele cascuda nos jovens de outrora – ou uma resiliência maior aos problemas. O problema para estes jovens maduros antes da hora é que, em muitos casos, eles entravam na vida adulta buscando compensar o tempo perdido com arroubos de irresponsabilidade, especialmente no plano emocional. É por isso, que, no fundo, não existem gerações melhores ou piores; apenas pessoas tentando fazer o melhor dentro do contexto que vivem.

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