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A viagem da sua empresa ficou mais cara este ano. E não vai voltar ao que era

Fábio Godinho,
para MR
27 de agosto de 2026

O aumento do combustível, já refletido nas tarifas, e a reforma tributária estão mudando a conta das viagens corporativas. Para as empresas que começam a preparar o orçamento de 2027, repetir as premissas dos últimos anos pode significar subestimar uma linha relevante de despesas.

Setembro e outubro abrem o ciclo de planejamento de muitas das grandes empresas brasileiras. Viagens corporativas costumam ser projetadas a partir do gasto do ano anterior, acrescido de uma premissa de inflação. Desta vez, os números recomendam outra abordagem.

Entre 2020 e 2025, apesar da forte volatilidade provocada pela pandemia, as passagens aéreas acumularam alta próxima de 49% pelo IPCA do IBGE, equivalente a cerca de 6,8% ao ano. Em 2026 surgiu uma nova pressão. Com a escalada do conflito no Oriente Médio, o Brent, que estava próximo de US$ 60, chegou a US$ 120 em 29 de abril. Combustível representa cerca de 40% dos custos de uma companhia aérea.

Os balanços do segundo trimestre mostram quanto dessa pressão começou a chegar aos preços. Na Latam, a capacidade cresceu 8,9% e o preço médio, cerca de 17,5%. Na Delta, a oferta avançou 1% e a tarifa média, 12%. Na Copa, foram 16,5% e 8,7%, respectivamente. Mesmo com o repasse, o lucro caiu 48% na Latam, 25% na Delta e 54% na Copa. Parte do aumento de custos chegou às tarifas e parte permaneceu nas margens.

Em 2027, a conta ganha um componente adicional: a reforma tributária. Na aviação doméstica, a redução de 40% da nova alíquota ficou reservada somente às rotas consideradas regionais. As principais ligações entre os grandes centros econômicos ficaram fora desse tratamento diferenciado e representam cerca de 85% do tráfego de passageiros no mercado doméstico.

A IATA estima que a carga tributária da aviação brasileira passe de R$ 4,8 bilhões para R$ 17,8 bilhões, aumento de 271%, com impacto de 23% no preço das passagens domésticas e 26% nas internacionais. Como consequência do encarecimento, a entidade projeta uma retração de até 30% na demanda aérea brasileira.

A hotelaria também recebeu redução de 40% sobre a nova alíquota. Ainda assim, a tributação sobre o consumo, hoje estimada em cerca de 8,3% da receita bruta do setor, pode chegar a aproximadamente 15,9%, praticamente o dobro. Além disso, a legislação impede que a empresa que paga a hospedagem aproveite créditos de IBS e CBS. Para companhias que deslocam equipes ou realizam eventos em escala, os dois efeitos aumentam o custo efetivo da viagem.

Passagem aérea é preço de mercado e não permite trava anual. A resposta terá de vir também da gestão: antecedência de compra, política de viagens, número de deslocamentos e escolha de destinos.

O orçamento de 2027, portanto, não deveria partir apenas do gasto de 2026 acrescido da inflação. Combustível, tributação e perda de créditos mudaram as premissas. Para quem começa agora o planejamento, a pergunta mais relevante é outra: quanto custará manter no próximo ano o nível de mobilidade que a estratégia da empresa exige?

Fábio Godinho é executivo com mais de vinte anos de atuação no setor de turismo. Foi presidente de companhia aérea, de uma das maiores redes de hotelaria do Brasil e do maior grupo distribuidor de produtos de turismo da América Latina. Ao longo da carreira, conduziu cinco eventos de liquidez, entre IPO e follow-on, ambos na B3, venda de empresas para compradores estratégicos, para fundos imobiliários e para private equity estrangeiro. É formado em Administração de Empresas, com MBA pelo IBMEC e formação executiva em Kellogg, Wharton e Stanford

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