Muitas vezes, o ambiente faz o dry martini, essa mistura divina e gelada de gim e vermute. Um belo bar e uma boa companhia, assim, podem melhorar o sabor desta bebida, cuja origem tem várias versões. Em uma delas, seu nome original era Martinez e foi criado em 1882. Em outra, foi inventado em Nova York, no ano de1910, por um bartender chamado Martini di Taggia, no hotel Knickerbocker (para homenagear o bilionário John D. Rockefeller). Neste capítulo da coquetelaria, sou estritamente old school: prefiro meu dry martini com uma ou no máximo duas gotas de Noilly Prat. E estupidamente gelado. Esse, para mim, é o segredo de um bom martini.
Ultimamente, os bartenders da nova geração adoram exagerar no vermute. Quando isso acontece, devolvo o drinque. No bar de um hotel famoso aqui em São Paulo, tive de fazer isso três vezes, até que o mâitre se irritou com a pessoa que estava fazendo o coquetel, foi atrás do balcão e produziu uma verdadeira preciosidade.
Tenho quatro grandes lembranças deste precioso líquido. Começo com o primeiro martini que bebi em Nova York, no extinto Oak Room, o legendário bar do Plaza Hotel. Anos depois, provei outro maravilhoso em Singapura, no bar do hotel Raffles, decorado com leques que se movem sozinhos no teto (ver imagem abaixo). Por fim, duas preciosidades feitas aqui em São Paulo, cometidas em dois lugares que não existem mais: no San Francisco Bay, da rua Barão de Capanema, e no Paddock (tanto o da Avenida São Luiz, no Centro, como o da filial na Faria Lima). O que os coquetéis do San Francisco e do Paddock tinham em comum? O lendário Derivan Ferreira de Souza, talvez o maior bartender que o Brasil já viu em ação e nos deixou em 2023.
Abaixo, listo cinco endereços atuais (na capital paulista e na Big Apple) nos quais o dry martini é maravilhoso, o serviço é muito bom e a ambiance ajuda muito a apreciar essa bebida dos deuses. Cada um tem o gim de sua preferência para executar essa receita centenária. O meu é o Bombay Saphire. Mas me contento com outras marcas, desde que sejam bem pilotadas pelos mestres da mixologia. Ah, prefiro também o estilo disseminado no mundo por James Bond: shaken, not stirred.
Vamos lá:
FASANO: pode ser no bar do lobby ou no restaurante do hotel. O dry martini do Fasano é especial e apresentado de uma forma rara. Metade vem em uma finíssina taça e a outra metade em uma jarrinha envolvida em gelo picado. Neste recipiente, o dry martini se mantém geladíssimo e delicioso.
GERO: as taças do Gero são generosas e abrigam um ótimo dry martini, com azeitonas carnudas, pouco vermute e líquido geladíssimo. O ambiente, aqui, também ajuda: os tijolos aparentes desse restaurante dão um clima especial ao lugar, fazendo do balcão do bar um lugar especial para ver o movimento. Mas o terraço que dá para a rua Haddock Lobo também é uma ótima opção para bebericar com os amigos.
CIPRIANI (NOVA YORK E VENEZA): talvez o melhor dry martini que tenha experimentado na vida, especialmente o de Nova York. Curiosamente, o drinque não vem na taça clássica e sim em um copo de shot, com uma pequena azeitona afogada no fundo. Esse copinho vem trincando de gelado, assim como o gim, batido com um fiapo de vermute.
NOBU 57: várias unidades deste restaurante espalhadas pelo mundo produzem um bom martini. Mas essa, localizada em Nova York, faz um drink portentoso e oferece azeitonas recheadas com uma pasta queijo gorgonzola. Excepcional.
BEMELMANS BAR: O tradicional hotel Carlyle virou Rosewood em Nova York, mas seu bar, batizado em homenagem ao ilustrador austríaco Ludwig Bemelmans, permanece o mesmo. As paredes, pintadas pelo artista (que se notabilizou por várias capas da revista The New Yorker), são um show à parte. Peça seu gim preferido e seja feliz. Beber nesse bar é como voltar ao tempo a 1947, quando o lugar foi inaugurado. Curiosidade: em troca de seu trabalho, Bemelmans e sua família receberam hospedagem gratuita no hotel por um ano e meio.

Aqui estou eu, muito jovem, tomando um dry martini no bar do Raffles Hotel em Singapura
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